Marlon Brando nos chats da AOL: o Poderoso Chefão dos nicks falsos

O dia em que Don Corleone descobriu a internet

Marlon Brando é o tipo de figura que, se tivesse nascido 20 anos depois, provavelmente teria uma conta anônima no X (vulgo Twitter) com um nome como @DonDoughnut69. Nos anos 1990, porém, ele fez algo ainda mais lendário: passava horas nas salas de bate-papo da AOL fingindo ser outras pessoas.

Sim, o homem que murmurava ameaças como Don Vito Corleone também se divertia trocando mensagens com completos desconhecidos, empolgado com a ideia de “poder ser qualquer um”. O Brando dos anos 1990 era, basicamente, um adolescente entediado descobrindo o ICQ — só que com dois Oscars na prateleira.


Um ator genial, um troll digital precoce

Segundo o livro Marlon & Greg: My Life and Filmmaking Adventures with Hollywood’s Polar Opposites, Brando mergulhava nos chats “fingindo ser todo tipo de gente”, fascinado com o anonimato. (Via Far Out Magazine)

Imagine o cenário:
Um internauta digita “asl?” (idade, sexo, localização) e recebe de volta:

“Homem, 47, de Las Vegas. Mas talvez eu tenha dirigido o bonde chamado Desejo.”

Brando ficou obcecado pela sensação de conversar sem ser reconhecido — algo compreensível para um homem que odiava tanto a fama quanto os bastidores de Hollywood. Ele queria o prazer de falar besteira na internet sem sair em manchete no Variety.


O Poderoso Chefão das tretas online

No livro The Contender: The Story of Marlon Brando, o autor William J. Mann descreve o ator passando horas discutindo política com estranhos, até ser expulso das salas por dizer a clássica frase:

“Vai se f****!”

Ou seja, o homem que redefiniu o realismo no cinema também inventou o rage quit.
Se hoje temos Elon Musk brigando com jornalistas no X, Brando foi o protolorde dos comentários raivosos — o pai espiritual do “digitou com caps lock e saiu do grupo”.


O artista, o mito, o caos

Brando foi um paradoxo ambulante: odiava a indústria, mas não conseguia ficar longe dela. Ele sugeriu que seu personagem em Superman fosse “um grande donut verde”, exigiu que um ator anão fosse seu sidekick em A Ilha do Dr. Moreau e chegou a amarrar uma colega de cena na cama para ir almoçar (isso não envelheceu bem, diga-se).

Então é claro que ele se apaixonaria por um universo onde podia ser alguém sem ser ninguém.
A AOL foi, para Brando, o último palco: um fórum infinito onde o drama era real, mas os aplausos não.


Brando, o homem que trollou antes do tempo

Hoje, com redes sociais devorando reputações em 280 caracteres, é até poético pensar que o maior ator do século passado só queria conversar — sem que o mundo soubesse que era ele.

Brando usava os chats como uma forma de terapia: trocava o set de filmagem por salas virtuais onde ninguém pedia autógrafo, e onde ele podia finalmente ser só… um cara discutindo política às 3 da manhã.

Em resumo:
Marlon Brando foi o primeiro troll sofisticado da história.
Antes dos bots russos, antes dos haters do Reddit, existia ele — digitando de bermuda, rindo sozinho, e sendo, como sempre, brilhantemente incompreensível.

Se o método de atuação de Brando revolucionou o cinema, seu método de procrastinação revolucionou a internet. Ele viveu e morreu como atuava: com intensidade, contradição e uma ponta de loucura genial.