Os Donos do Jogo chegou à Netflix falando de poder, sangue e dinheiro fácil — e, claro, todo mundo quer saber: “Isso tudo aconteceu de verdade ou é só novela com fuzil e charuto?” A resposta curta é: a série é ficção. A resposta honesta é: é ficção com grau de realidade suficiente pra deixar advogado nervoso.
O criador da série, Heitor Dhalia, contou que a equipe fez uma apuração pesada: entrevistas com gente do meio, conversa com polícia, leitura de notícias, mergulho em processos e livros. Não é um documentário, mas também não é fantasia total. Como ele explica: “É ficção, mas com um grau de verossimilhança bastante alto.” Em outras palavras: nomes mudam, a mecânica do poder não.
Vamos por partes.
1. A guerra de famílias pelo controle do bicho
Na série, a gente acompanha Profeta (interpretado por André Lamoglia), um herdeiro do jogo do bicho no interior que desce para o Rio de Janeiro com um objetivo simples: sentar na mesa dos grandes e arrancar um pedaço do tabuleiro pra ele.
Esse mundo que a série mostra — “famílias” que mandam em territórios, sucessão como disputa de herança e gente matando parente por porcentagem — é muito parecido com como o jogo do bicho se estruturou de verdade no Rio.
Pesquisadores que estudam criminalidade urbana no Estado do Rio apontam que o jogo do bicho não é uma bagunça de banca de esquina. É uma empresa familiar. “O familismo é uma característica marcante”, explicam sociólogos que estudam o tema. A renda e o poder passam de pai pra filho, genro, sobrinho, cunhada — e isso não é lenda urbana, é padrão histórico.
A série mostra algo bem fiel a essa lógica:
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herdeiros que disputam sucessão;
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irmãos que se odeiam mais do que odeiam o inimigo externo;
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genro que casa e, de repente, assume parte do império.
Isso ecoa casos reais. Na vida real recente do Rio, as disputas entre clãs bicheiros envolveram justamente essas dinâmicas: genros ganhando território, filhos passando à frente, sobrinhos virando rivais mortais. Planilha de Excel com CPF e pistola na mesma mesa.
2. A “cúpula” do bicho existe?
Na série, os chefões se reúnem numa espécie de conselho — uma mesa onde se decide quem manda em quê, quem paga quem e quem vai sumir no próximo capítulo.
Isso não saiu da imaginação. Desde as décadas de 1970 e 1980, o jogo do bicho carioca teve algo muito parecido com um “conselho de administração”: chefes históricos dividiram zonas de atuação, mediaram conflitos e administraram grana de forma conjunta. Essa articulação ganhou nomes e estruturas ao longo do tempo e virou, em prática, uma federação do crime com CNPJ emocional.
Hoje, segundo investigações recentes, esse tipo de articulação continua existindo — inclusive com nomes mais jovens tentando ocupar os espaços deixados pelos velhos chefes. A série apenas dramatiza esse cenário, mas não inventa a ideia do “board meeting do crime”.
3. Os personagens são reais?
Aqui vem a parte em que a Netflix dorme tranquila juridicamente: os personagens são fictícios.
Profeta, Búfalo, Suzana, Mirna, Galego, Leila — todos foram criados para a série. O que a produção fez foi algo bem típico de drama criminal: misturar traços, episódios e dinâmicas de figuras reais e reorganizar em personagens novos.
Exemplo: na série, Búfalo (Xamã) toma as rédeas do clã Guerra depois de se casar com a herdeira. Na realidade do Rio, existiram casos em que o genro assumiu parte do império da família após a morte (ou execução) do patriarca. A semelhança não é coincidência. Mas também não é um “biopic” disfarçado: ninguém da série é cópia 1:1 de um bicheiro famoso.
Outro ponto que muita gente reparou: a disputa entre irmãs pela herança na série lembra casos reais de briga entre filhas de contraventores no Rio, com ciúme de poder, sabotagem e sucessão no grito. A inspiração é clara — mas, de novo, o texto embaralha nomes, datas e relações.
Tradução: você vai conseguir reconhecer o tipo de gente, mas não apontar pra tela e dizer “olha ali fulano em HD, pronto pra ser usado no tribunal”.
4. A violência é “dramatização” ou é aquilo mesmo?
É aquilo mesmo.
O universo do jogo do bicho costuma ser romantizado: o “contraventor folclórico”, o “patrono do samba”, o “tiozão generoso que paga fantasia e cesta básica”. A série joga fora essa versão carnavalizada e mostra o outro lado: sequestro, execução, emboscada, disputa por território e acerto de contas com tiro na cara.
Isso também está na realidade. Disputas internas entre grupos de bicheiros no Rio, principalmente a partir dos anos 1990, já deixaram dezenas de mortos confirmados em investigações policiais. Homicídios ligados à briga por zona de apostas, caça-níqueis, máquinas eletrônicas, controle de pontos de coleta… Isso não é invenção dramática: está nos processos e nos relatórios.
A série vende como “máfia tropical”. E, honestamente, esse rótulo não é só marketing. A engrenagem é poder + dinheiro + lealdade familiar + violência direta. Não tem nada de amador — é organizado, letal e está na cidade inteira.
5. “Só homem manda”? Sim. Quase sempre.
A série mostra um universo majoritariamente masculino. Chefes, seguranças, operadores, todos tentando performar a mesma masculinidade de “eu mato e ninguém me toca”.
Isso é muito próximo da realidade. O jogo do bicho sempre teve figuras masculinas dominando o topo da hierarquia. Mulheres existem, claro — inclusive viúvas, filhas e esposas que assumem trechos da operação quando o “patriarca” cai. A série faz duas coisas interessantes aqui:
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Mirna (Mel Maia) tenta quebrar a lógica de “isso é coisa de homem”.
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Leila (Juliana Paes) joga poder nos bastidores, tentando decidir mais que apenas quem senta à cabeceira da mesa, e sim quais mesas vão existir.
Esse tipo de tensão aparece na vida real? Aparece. Mas regra geral, a estrutura é masculina, violenta e vertical. A série não inventa isso — só coloca holofote.
6. Carnaval, futebol, cavalo e política: isso também é real
Outra camada da série: os bicheiros não vivem só do bicho. Eles lavam, investem e compram prestígio. Carnaval, escolas de samba, time de futebol pequeno, jóquei, patrocínio de atleta, doação pra evento comunitário… tudo isso faz parte de uma construção de imagem e também de uma estratégia financeira.
Isso vem da vida real. Há décadas, chefes do jogo do bicho no Rio bancam desfile de escola de samba, pagam ala, mandam e desmandam dentro da quadra. Isso não é lenda urbana carioca: é história oficial do samba. O dinheiro sujo entra como “cultura popular”, e em troca o contraventor vira benfeitor do bairro, herói de comunidade, padrinho de escola.
Na série, a gente vê justamente isso: personagens que financiam Carnaval, circulam entre políticos, dominam tanto a rua quanto os salões chiques. Isso é parte essencial da realidade do jogo do bicho no Rio: a fronteira entre ilegal e “respeitável” é, muitas vezes, só uma mesa VIP.
7. Relação com polícia e política
Se você achou exagero ver policial, político e banqueiro do bicho todo mundo no mesmo convescote… não é exagero.
Historicamente, o jogo do bicho no Rio comprou proteção de autoridades, financiou campanhas e manteve relações públicas e notórias com figuras políticas. E, sim, diferentes investigações mostram que pagamentos a policiais e delegacias acontecem em troca de vista grossa em áreas onde as bancas operam ou onde máquinas caça-níquel rodam.
Ou seja: a série mostra policiais e figurões políticos orbitando o esquema como se fosse normal. E isso conversa diretamente com denúncias e investigações reais.
8. A ameaça nova: as apostas online
A série também coloca um elemento bem atual: apostas digitais.
Tem personagem que enxerga as bets online como ameaça e, ao mesmo tempo, como oportunidade. “Se o povo não sabe mexer no app, eu viro o app do povo e fico com a margem.” Perfeito.
Isso é bem atual. As organizações ligadas ao jogo do bicho vêm migrando (ou tentando migrar) pra um modelo mais moderno, misturando velho (caderneta, coletor de aposta no bar) com novo (site, QR Code, lavagem de dinheiro em plataforma digital). Em alguns estados, operações policiais recentes já levantaram justamente esse tipo de articulação entre bicho tradicional e site de aposta.
Em resumo: a série não está presa nos anos 80 do pastel de feira. Ela mostra como essa economia ilegal está tentando sobreviver na era dos aplicativos.
Então… é tudo verdade?
Não. Não é um docudrama com nomes trocados.
Mas também não é fantasia. Os Donos do Jogo pega estruturas que existem (ou existiram), casos que aconteceram (ou quase aconteceram), perfis de figuras reais e empacota isso em personagens e situações dramáticas.
É assim que você conta crime organizado sem terminar processado por meia cidade.
Se você assistir achando que é 100% inventado, vai achar tudo “exagero”.
Se você assistir sabendo que o Rio de Janeiro é uma cidade onde contraventores históricos financiaram Carnaval oficial, compraram polícia, abriram negócios formais e mataram para manter território… você vai achar a série até comportada.

