Quando o crime fede — e não é só o da consciência
Em Delaware County, Pensilvânia, o som das sirenes é raro. O que domina as manhãs é o barulho de caminhões de lixo e o tilintar das janelas abrindo à noite.
É ali que vive Task, a nova série de Brad Ingelsby, criador de Mare of Easttown, que mais uma vez transforma o cotidiano da classe trabalhadora americana em uma ópera de dor, redenção e… coleta de resíduos.
A série, descrita por Ingelsby como “um Heat de operário”, acompanha Tom Brandes (Mark Ruffalo), um agente do FBI liderando uma força-tarefa improvisada que tenta capturar um grupo de ladrões violentos liderado por Robbie (Tom Pelphrey) — um pai de família que passa despercebido até o dia em que deixa de ser invisível.
“É tipo Heat, mas com lixeiros”
Durante entrevista ao The Playlist, Ingelsby riu da comparação recorrente com o clássico de Michael Mann:
“É o que a gente diz mesmo. É tipo um Heat de classe média. Esses caras são coletores de lixo que assaltam casas meio caídas, e o investigador principal é um desastre completo.”
O criador explica que o interesse está no conflito moral inevitável:
“Você quer que um fuja e o outro capture. E essas duas vontades não podem coexistir. Essa é a colisão que move a série.”
Ruffalo e Pelphrey: fé, culpa e balas perdidas
Mark Ruffalo entrega um protagonista esgotado, um homem cuja fé colapsou junto com sua paciência. Ingelsby, que cresceu católico, diz que o personagem é “um sujeito tentando reencontrar algum tipo de crença, mesmo que não seja ajoelhando no altar”.
Já Tom Pelphrey faz de Robbie um criminoso contraditório: brutal e terno, perigoso e vulnerável.
“Meu trabalho é ser verdadeiro no momento, sem julgar. Posso estar roubando uma casa hoje e jantando com meus filhos amanhã — e as duas coisas são igualmente reais”, explicou o ator.
Pelphrey também brincou com o sotaque de Delaware County, conhecido como “Delco accent”:
“É um treino de memória muscular na boca. Você passa horas ouvindo gente real, mas precisa tomar cuidado pra não deixar o sotaque dirigir a cena.”
As mulheres que seguram o caos
Entre os destaques do elenco estão Emilia Jones (CODA) e Sylvia Dionicio (FBI: Most Wanted), que vivem Maeve e Emily — duas jovens forçadas a amadurecer cedo demais.
“Mesmo sendo só uma garota de 17 anos, ela está passando por muita coisa”, diz Dionicio.
Jones complementa: “Brad escreveu momentos de leveza e insegurança que lembram a adolescência real. Ela quer sair pra um encontro, quer beijar alguém, mas o tio não deixa.”
Fora das câmeras, a dupla se tornou inseparável.
“No meu celular, o nome do Mark Ruffalo está salvo como ‘#daddy’”, brincou Dionicio.
Entre o crime e a confissão
O que diferencia Task de outros dramas policiais é o tom de fé perdida que permeia tudo.
O showrunner diz que não se trata de um “quem matou”, mas de um “quando vai desabar”:
“A tensão não vem de descobrir quem é o culpado, mas de saber que tudo vai ruir — e ficar esperando o momento exato.”
Ingelsby também usou a própria vivência para dar autenticidade à série:
“Aprendi com Mare of Easttown que, se você for específico sobre um lugar e um grupo de pessoas, isso ressoa. Eu conheço esses bairros. É onde nasci, onde moro. Isso me dá confiança pra mergulhar neles.”
Delco Universe: Ingelsby confirma o multiverso da faxina emocional
Questionado sobre possíveis crossovers com Mare of Easttown, Ingelsby admitiu que as duas histórias vivem no mesmo mundo:
“Eu nunca considerei fazer um crossover direto, mas na minha cabeça eles coexistem. Consigo imaginar o Tom jantando num restaurante onde a Mare também está.”
E, sim, ele voltaria às duas produções sem pensar duas vezes:
“Se eu passasse o resto da vida escrevendo sobre essas pessoas, eu ficaria satisfeito.”
Conclusão: Task é o novo “Heat” — se “Heat” tivesse cheiro de lixo molhado e culpa católica
Brad Ingelsby fez de novo.
Depois de Mare of Easttown, ele entrega outro retrato melancólico e visceral da América invisível — agora com Mark Ruffalo em modo penitência e Tom Pelphrey em modo desespero.
Task é o tipo de série que começa com um caminhão de lixo e termina com uma epifania moral.
É suja, humana, e impossível de parar de assistir — um lembrete de que o verdadeiro inferno não é o crime, mas a rotina.

