O 365 Filmes em um Ano abre suas portas para um dos suspenses mais diabólicos dos anos 90: O Advogado do Diabo (1997). Um filme que mistura tribunal, thriller sobrenatural e sermão apocalíptico em mármore polido — tudo embalado por um Al Pacino no modo “pecado favorito”.
A trama acompanha Kevin Lomax (Keanu Reeves), advogado que nunca perdeu um caso. Da pequena Gainesville para Nova York, ele é cooptado pelo misterioso John Milton (Al Pacino), chefe de um escritório de advocacia que mais parece uma antessala do inferno. No meio disso, Mary Ann (Charlize Theron) paga a conta emocional de uma vida cada vez mais luxuosa e cada vez mais vazia.
Rever o filme hoje é encarar um loop de vaidade: ganhar no tribunal, perder na vida. Kevin privatiza a ética — “só desta vez” — e cada vez que dobra a regra, mais perto chega do abismo. Mary Ann é a tragédia anunciada: isolada, alucinada, ignorada. A cena do abraço em que a alucinação sexual invade o carinho do marido é o filme inteiro comprimido num frame: desejo, ausência e culpa.
E aí tem Pacino. Milton não grita: ele musicaliza a tentação. O metrô, o parque, o sermão final — cada fala é um contrato verbal com cláusulas em letra minúscula. Ele vende o inferno como upgrade de carreira, e a gente compra o show inteiro.
O final? Uma ópera de vaidade, livre-arbítrio e replay eterno. Talvez Kevin escolha, talvez seja só mais um reset do loop. O espelho do banheiro, que abre e fecha o filme, é a prova: vaidade é pecado favorito, mas também vício com botão de rebobinar.
A pergunta que não quer calar:
O Advogado do Diabo é um filme de tribunal, de terror… ou um manual de compliance escrito pelo próprio capiroto?

