Se você acha que o maior mistério da humanidade é entender por que as pessoas ainda caem em esquemas de pirâmide, A Arte de Sarah chega para mostrar que a identidade humana é um acessório de moda tão volátil quanto uma bolsa de luxo em liquidação.
O novo K-drama da Netflix tenta ser o suprassumo do suspense psicológico, mergulhando no mundo das marcas exclusivas e da elite de Seul, onde a única coisa mais falsa que os sorrisos nos coquetéis é a própria protagonista. Dirigida por Kim Jin-min — que já mostrou em My Name que sabe filmar gente bonita se dando mal —, a série começa como um banquete para os olhos e termina como uma ressaca de espumante barato.
A trama gira em torno da morte de Sarah Kim (Shin Hye-sun), a criadora da grife Boudoir, que bate as botas logo após o lançamento da marca. O detetive Park Mu-gyeong entra em cena para investigar, apenas para descobrir que Sarah Kim tem tantos registros oficiais quanto um unicórnio em um cartório: zero.
O que se segue é um emaranhado de depoimentos contraditórios de amigos “fiéis” e conhecidos invejosos, cada um pintando um retrato diferente de uma mulher que parece ser feita inteiramente de espelhos e red herrings. É um quebra-cabeça de oito episódios que exige que o espectador largue o celular e preste atenção nos microdetalhes, uma vitória rara em tempos de produções feitas para quem sofre de déficit de atenção crônico.
A estética aqui não é apenas um capricho; é narrativa pura. A série usa simbolismos com a sutileza de um desfile de alta costura: Shin Hye-sun está constantemente cercada por superfícies reflexivas, sugerindo que sua verdadeira essência está tentando escapar daquela persona plastificada. É um deleite visual onde pistas são encontradas em coleções de bolsas e tatuagens escondidas. No entanto, nem toda a direção de arte do mundo salva um roteiro que decide tirar um cochilo no oitavo episódio.
Após sete capítulos de pura tensão e construção meticulosa, o final chega com a força de um espirro interrompido. As revelações são previsíveis e os ganchos deixados em aberto trazem uma sensação de “é só isso?” que beira o ofensivo.
Para piorar a situação, Lee Joon-hyuk, um ator veterano que deveria ser o protagonista masculino, é reduzido a um figurante de luxo com distintivo. Ele é o detetive passivo que apenas observa a história acontecer, sem passado, sem motivação e sem personalidade. Ele está ali apenas para dirigir o carro da investigação enquanto a Sarah faz todo o trabalho pesado de ser interessante. É como contratar um chef premiado para fritar um ovo: um desperdício de talento que deixa um gosto amargo na boca do espectador.
A série discute classismo, roubo de identidade e o abismo entre o “velho dinheiro” e os novos ricos com uma acidez bem-vinda, mas perde o fôlego quando precisa amarrar as pontas. É uma obra que começa como um quadro de galeria e termina como uma impressão borrada de impressora com pouca tinta.
Vale o play pelas atuações silenciosas e pelo visual deslumbrante, mas prepare-se para o desânimo quando os créditos finais subirem. No fim das contas, a arte de Sarah é exatamente como o mercado de luxo que ela critica: uma embalagem impecável escondendo um produto que não vale metade do preço que cobra pela sua atenção.

