Se você piscou, a Netflix já lançou outro Harlan Coben. Custe o que Custar (título BR de Run Away) chega com aquela sensação de “já vi isso… e vou ver de novo”, porque conforto moderno é exatamente isso: um thriller que te abraça com uma mão e te dá um tapinha suspeito com a outra. O pacote é o de sempre — família aparentemente normal, um sumiço que vira buraco negro moral, e uma máquina de reviravoltas que trabalha em turno duplo — só que aqui a engrenagem está mais bem lubrificada do que na média. O resultado é um binge que escorre fácil, oito episódios, e aquele gostinho de “não é grande arte, mas é um vício socialmente aceito”.
A trama é cruelmente simples: Simon (James Nesbitt) é o pai que não sabe mais ser pai porque a filha Paige (Ellie de Lange) sumiu no rastro da dependência química. E aí o seriado faz o que Coben faz melhor: transforma desespero doméstico em conspiração de bairro, e conspiração de bairro em um mapa de culpados onde todo mundo tem um porão metafórico (e alguns têm porão literal, porque claro). Nesbitt é o “everyman torturado” em modo assinatura — aquele homem comum que vai sendo moído por decisões ruins enquanto insiste em se achar o único lúcido na sala.
O tempero que dá liga aqui é o elenco de apoio que entra como se o roteiro tivesse sido escrito já pensando em quem vai levantar a sobrancelha do espectador. Tracy-Ann Oberman aparece como uma advogada com energia de tubarão no aquário: você não sabe se ela vai te salvar ou te faturar. Ruth Jones (sim, a Ruth Jones) vira a investigadora Elena Ravenscroft com uma frieza de luva de veludo: toda educadinha por fora, mas com um olhar que parece estar sempre calculando onde você vai cair quando a cadeira quebrar. Minnie Driver está ali como Ingrid, a esposa que tenta ser a bússola moral no meio do furacão — e, quando a série precisa acelerar, ela vira mais peça de xadrez do que personagem (o que é um desperdício de carisma, mas também é bem “Coben”, né?).
E os twists? Vêm no atacado. Custe o que Custar não tem vergonha de ser essa esteira de aeroporto: você sobe, ela te carrega, e quando percebe já passou por três revelações, dois suspeitos e um “peraí… mas então aquilo no episódio 1…”. O roteiro entende o vício do público: não é só descobrir “onde está a filha”, é descobrir quantas mentiras cabem numa família antes dela virar um objeto de cena. A cada episódio, o seriado planta pistas com o entusiasmo de quem está montando uma horta industrial: algumas florescem, outras são só adubo narrativo, mas quase sempre servem para te puxar pro próximo play.
E aí vem a parte que eu adoro (e que vai irritar gente que finge que não): isso aqui é TV-cobertor fantasiada de thriller. “Rating-banker”, como se diz lá fora — produto pensado para segurar atenção, gerar conversa e preencher calendário. A série sabe exatamente o que é: eficiente, “workmanlike”, com diálogos que às vezes parecem escritos por um algoritmo treinado em Casualty e ansiedade moderna. Só que — e isso é importante — quando a máquina funciona, ela funciona bonito. Não é “prestígio”. É “compulsão”. E tem diferença.
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O mais esperto é que Custe o que Custar não tenta vender a Paige como mistério abstrato. A história cutuca um ponto incômodo: o pai que quer “resolver” a filha como se fosse problema técnico, enquanto todo mundo ao redor (inclusive autoridades) repete aquele mantra cruel de manual — “tem que chegar no fundo do poço”. A série explora a culpa dos pais, a autopiedade dos homens que confundem amor com controle, e a facilidade com que a internet transforma qualquer narrativa em tribunal. Tem um elemento “viral” no caos: reputação vira prova, recorte vira sentença, e um vídeo editado é mais poderoso do que a realidade inteira. (Se isso te parece exagero… parabéns por morar fora do planeta Terra.)
Mas vamos ser honestos: Coben também adora uma coincidência bem penteada. Tem “meanwhile” demais, linha paralela demais, personagem com função demais. Em certos momentos, parece que o roteiro joga dardos num mural e decide: “ok, agora entra um bilionário, um filho adotivo, um restaurante vegano, e dois jovens que… bom, não vamos detalhar, mas você entendeu”. E mesmo assim, a engrenagem não desmonta. Por quê? Porque a série nunca te pede profundidade: ela te pede curiosidade. Ela te alimenta com ganchos, e você aceita como quem aceita batata frita às 2 da manhã: não é nutritivo, mas é exatamente o que o cérebro quer.
No saldo: Custe o que Custar é um retorno “em forma” dentro da própria fórmula. Um thriller de oito episódios que sabe que você vai reclamar do excesso — e vai maratonar do mesmo jeito. É a Netflix te oferecendo mais um copo d’água… só que a água é suspeita, o copo tem digital de todo mundo, e no fundo tem um bilhetinho dizendo: “só mais um episódio”

