Dele e Dela (His & Hers) é aquela minissérie que te pega pela gola logo de cara, te joga no porta-malas de um suspense “de aeroporto premium” e só abre de novo quando você já estiver no episódio seguinte dizendo “tá, só mais um”. Em seis episódios, a adaptação do romance da Alice Feeney transforma uma cidadezinha na Geórgia num ringue de versões, ressentimentos e segredos — e faz isso com a cara lavada de produto bem embalado, sem pedir desculpa por ser novela policial de alto giro.
O motor aqui é simples e eficiente: uma mulher é encontrada morta, e todo mundo parece ter um motivo, um álibi mal costurado ou um passado que prefere manter enterrado. A série brinca com a ideia de perspectiva (“o dele e o dela”) como se estivesse te oferecendo duas lentes… mas o barato mesmo é outro: ver como cada personagem usa a própria lente para mentir melhor, inclusive para si mesmo.
O grande acerto é o elenco principal segurando o caos com carisma e tensão. Tessa Thompson dá à Anna aquela mistura de frieza funcional e combustão interna de quem vive de “controle de narrativa” — uma ex-âncora (ou quase isso) que fareja o caso como oportunidade de retomar espaço, mas também como ajuste de contas íntimo com a cidade e com o que ela virou quando foi embora.
Jon Bernthal, por sua vez, faz do detetive Jack Harper um sujeito que parece sempre prestes a explodir por dentro, mas que tenta resolver tudo no modo “dureza profissional”, como se isso fosse suficiente para abafar o pântano emocional e moral que vai se formando ao redor. E quando a série revela a conexão pessoal entre os dois, a história ganha o tempero certo de constrangimento, raiva antiga e desejo mal resolvido — porque thriller bom adora um crime, mas ama mesmo é um casamento quebrado servindo de subtrama venenosa.
O resto do tabuleiro é montado pra maratona: a rival do noticiário (Rebecca Rittenhouse), o cameraman que vira “má ideia com boa luz” (Pablo Schreiber), a irmã alcoólica que chega com cheiro de confusão (Marin Ireland), a parceira de investigação que tenta manter a lógica viva no meio do circo (Sunita Mani), e um marido da vítima com frase de efeito e cara de culpado de catálogo (Chris Bauer).
A direção e o texto não têm pudor em empilhar pistas, reviravoltas e coincidências “convenientes” — e, sim, isso às vezes flerta com o absurdo. Mas é exatamente aí que a série funciona como entretenimento: ela não quer ser a prima sofisticada de Mare of Easttown; ela quer ser a amiga que te chama pra fofocar sobre gente horrível fazendo escolhas piores ainda, com um crime no centro para justificar o vício. E há um prazer real em ver como o roteiro vai trançando os fios e voltando para amarrar pontas que pareciam jogadas ao acaso (ainda que algumas amarrações sejam daquele tipo “ok, eu aceito, só não me pede pra pensar demais”).
Também ajuda o pacote de produção: a Geórgia aparece com cara de “calor úmido e pecado antigo”, e a série se apoia nessa sensação de lugar pequeno onde todo mundo se conhece — ou acha que conhece — para fazer a paranoia render.
No fim, Dele e Dela entrega exatamente o que promete: um suspense rápido, cheio de viradas, com atores grandes fazendo o possível para dar carne e contradição a um material que prefere correr do que contemplar. Se você entrar esperando coerência cirúrgica e realismo emocional impecável, vai reclamar; se entrar querendo um mistério compulsivo, com energia de “não acredito que fizeram isso… passa o próximo”, você vai devorar.

