monstro: a história de ed gein

Review Monstro: A História de Ed Gein: choque sem propósito em embalagem premium

A terceira temporada da antologia de Ryan Murphy encena horrores com capricho técnico, mas quase nenhum pulso moral — e confunde provocação com pornografia da violência.

Depois de Dahmer e dos Menendez, Monstro: A História de Ed Gein mira o “ghoul” de Plainfield e o seu rastro na cultura pop (de Psycho a O Massacre da Serra Elétrica). No papel, a ideia é promissora: mostrar como crimes reais se distorcem ao atravessar décadas de filmes, lendas e histerias. Na prática, a série prefere morar no grotesco.

Max Winkler (direção) e Ian Brennan (roteiro) costuram passado e presente: vemos Gein (Charlie Hunnam) entre a mãe fanática (Laurie Metcalf), a amiga que o inicia em pulp macabro e fantasias com Ilse Koch; em paralelo, Alfred Hitchcock (Tom Hollander), Robert Bloch e Anthony Perkins recriam Psycho. O ritmo é ágil e a fotografia elegante, mas o que sustenta essa maquinaria é um olhar lascivo para cadáveres, flayed corpses e “artesanato” de pele — sem um contrapeso ético que dê sentido a tanto abuso encenado.

Hunnam aposta num registro afetado e infantilizado que reduz Gein a caricatura até quando a série exige empatia tardia. Metcalf é inquietante sempre que aparece; Hollander, sob próteses, vira esboço de meme. A dramaturgia adota boatos como fato (multiplica crimes, inventa ligações) e, quando toca em questões tensas — antissemitismo, misoginia, doença mental, espetáculo do crime —, só conecta pontos com giz grosso. A sequência que refilma o banho de Psycho com gore “2025” diz tudo: é citação sem reflexão, choque pelo choque.

Há, sim, lampejos do que poderia ser: um ensaio sobre como o horror migra do mundo real para o imaginário e retorna como produto — e qual é a nossa responsabilidade nisso. Mas a temporada confunde exame crítico com reencenação minuciosa, e termina como o próprio título sugere: vestindo a pele de obras que a inspiraram, sem coração batendo por baixo.

Vale a maratona?

Nota: ★★☆☆☆ (2/5) — Só para completistas de Murphy ou curiosos pela genealogia do terror. Quem busca contexto, ética e ideia vai encontrar um showreel de depravações envolto em luz bonita.

Acertos

  • Montagem e visual que entrelaçam passado/pop cultura com fluidez

  • Laurie Metcalf, precisa e perturbadora

  • Premissa ambiciosa (nunca plenamente explorada)

Deslizes

  • Voyeurismo: lingerings no grotesco sem contrapeso crítico

  • Gein de Hunnam oscila entre pantomima e súbita vitimização

  • Reencenações de Psycho e afins que copiam sem pensar

  • Boatos viram “verdade” e a ética documental vai pelo ralo

Veredito: técnica de primeira a serviço de um vazio incômodo.