review os donos do jogo

Review Os Donos do Jogo: “Game of Thrones” de chinelo e samba-enredo — e isso é um elogio (quase sempre)

Heitor Dhalia sabe que o público brasileiro não precisa de dragões quando já tem bicheiro, escola de samba e casamento que começa em paz e termina com promessa de cadáver. Os Donos do Jogo, nova série da Netflix, pega o tabuleiro do jogo do bicho, cola brasões de animais em cada “casa” e monta um “GoT” carioca num Rio que cheira a cavalo de hipismo, perfume importado e pólvora. A ambição é clara: popular, vistoso, maratonável. Quase sempre funciona — e quando não funciona, ainda rende fofoca no grupo da família.

A trama segue Profeta (André Lamoglia), garoto do interior que desce a serra com mais fome do que padrinho. Sem “costas quentes”, ele tenta fatiar a própria cadeira na Alta Cúpula do bicho. Cruza caminho com Mirna (Mel Maia), herdeira posta pra escanteio pela irmã (Giulia Buscacio) e pelo cunhado Búfalo (Xamã), e com Leila Fernandez (Juliana Paes), esposa de bicheiro que cansou de ser figurante do próprio casamento e resolveu jogar por conta. O tabuleiro abre num casamento à la O Poderoso Chefão com toque de Bons Companheiros, mas regado a mate e “cariocadas”: apresentação de famílias, regras não escritas, recados soprados no ouvido e uma coleção de frases de efeito que têm tudo pra virar dingo de torcedor (“Se eu gostasse de mimimi, arranjava um gato gago” vem aí pra camiseta).

Dhalia faz o dever de casa visual. A abertura piscando pra “Game of Thrones” com animais como brasões não é só firula; ajuda a organizar um universo caótico para quem nunca escutou falar de “banca”, “apuração” e “bicho no asfalto”. A direção abraça a estética do blockbuster urbano (ecos de Tropa de Elite), mas com o cuidado de cariocar referências gringas sem parecer paródia. E quando a série mergulha no folclore específico do Rio — quadra de escola, hipismo, a velha guarda do bicho encarando fintech com dois pés atrás —, nasce o diferencial: o exotismo deixa de ser fantasia e vira crônica.

O elenco entra afinado. Xamã se diverte como o marido que comprou cargo no casamento e tenta operar com testosterona onde se exige cálculo — ótimo termômetro da transição do bicho clássico pro “novo mercado”. Chico Díaz está delicioso como Galego: perigoso, mulherengo, mas com códigos que sustentam a lenda (e uma doçura torta com Xavier, ótimo Otávio Muller). Juliana Paes faz de Leila uma jogadora de bastidores que entende timing e silêncio — menos “femme fatale” de novela, mais CEO do lar promovida à diretoria. Lamoglia e Mel Maia ainda aquecem nos primeiros episódios, mas a química promete: há faísca, há risco, há jogo de sedução no fio da navalha.

Nem tudo são fogos na Sapucaí. Os episódios parecem mais longos do que precisam — não porque falte trama (acontece coisa demais), mas porque a série às vezes explana o óbvio: uma conversa a mais explicando regra que a câmera já mostrou, uma cena redundante martelando motivação. Falta, em alguns trechos, confiança no espectador. O romance que nasce do nada e vira motor estratégico em 15 minutos também pede um pouco menos de pressa e um pouco mais de subtexto. E a trilha, por vezes, subrinha o que a atuação já resolve — cuidado com o “efeito neon” em cenas que pedem sutileza.

Outro ponto: a série flerta com a glamorização do crime (inevitável no gênero), mas quando encosta na “vida real” — o poder paralelo que organiza bairro, patrocina o samba e manda matar sem recibo —, brilha. Fica o desejo de ver, nos próximos episódios, mais consequência e menos verniz em certas decisões. O bicho pode até ser mitológico, mas o Brasil de 2025 não é Westeros; lei, polícia, política e milícia dançam essa ciranda também — e a série é melhor quando deixa isso vazar pra dentro do quadro.

Dito isso, Os Donos do Jogo acerta a mão no que promete: entretenimento de alto giro com sotaque, personagens carismáticos e um mundo que a gente reconhece de ouvido. Heitor Dhalia faz disso um manual de iniciação pro leigo sem perder o charme para quem já viu Vale o Escrito de cabo a rabo. É maratona fácil: cada capítulo termina com novo pacto, nova punhalada, nova aliança que te puxa pro próximo.

Se mantiver o ritmo, tem tudo pra virar queridinha do público e assunto de bar: “Quem é fulano na vida real?”, “Aquela cena é referência a quem?”, “A casa do Tigre vai cair?”. E, se ganhar fôlego de segunda temporada (spoiler: os bastidores já sussurram que sim), que venha com duas correções: apertar a montagem e deixar a câmera confiar mais na inteligência de quem vê.

Veredito: um “Game of Thrones de chinelo” com alma de crônica carioca. Quando abraça o Shakespeare do asfalto, a série cresce; quando explica demais, tropeça. Vale a maratona — e a resenha maldosa no dia seguinte.