Os Sete Relógios (Agatha Christie’s Seven Dials) tem uma ideia que, no papel, parece o tipo de “conforto assassino” perfeito pra Netflix: festa chique no interior da Inglaterra, anos 1920, gente rica entediada, ressentimento social de sobremesa e um cadáver no quarto pra cortar o champanhe. O problema é que a série adapta um dos livros menos inspirados da própria Christie e tenta compensar isso do pior jeito possível: enchendo a tela de “coisas acontecendo” sem conseguir decidir se quer ser mistério clássico, sátira de classe, thriller de espionagem ou novelão de intriga. O resultado é um produto com figurino de época e alma de catálogo — daqueles que te fazem sentir que você já viu algo igual, só que com nomes diferentes, em mais ou menos dez streamings.
A abertura já dá o tom do que vem por aí: uma encenação “glossy” do período, com máscaras, frases de efeito e aquela promessa de “duas versões, alguém está mentindo” (o tipo de gancho que soa genial até você perceber que é só slogan). A trama gira em torno de Lady Eileen “Bundle” Brent (Mia McKenna-Bruce), filha de uma aristocrata sem grana (Helena Bonham Carter no modo “sarcasmo hereditário”), que acorda para o fato de que um amigo da família foi encontrado morto após uma noite de brincadeira com alarmes — oito relógios espalhados para acordar um dorminhoco profissional, e um desaparece, virando o tal “sete” do título. A partir daí, Bundle decide investigar por conta própria, e o que poderia ser uma aventura espirituosa de detetive amadora vira uma maratona de cenas que parecem existir só para recitar pistas, mover personagens de um cômodo para outro e garantir que, a cada episódio, uma reviravolta te obrigue a apertar “próximo” por teimosia, não por fascínio.
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E é aqui que o seriado se sabota: ele não confia no próprio material (nem no público) e transforma tudo em diálogo explicativo. Personagens não conversam: eles informam. Subtexto não existe: ele é lido em voz alta, com entonação de “presta atenção porque isso vai voltar”. A direção raramente cria suspense de verdade; quando ameaça um instante de personalidade visual, volta correndo para o enquadramento genérico de streaming, aquele que poderia estar em qualquer drama “prestígio” morno. O design de produção até cumpre o básico de te lembrar “estamos nos anos 20”, mas o tom das atuações — especialmente do elenco mais jovem — oscila entre aristocrata de novela de época e um ar de modernidade performática que quebra a fantasia. Fica uma sensação estranha de cosplay caro: bonito, mas o coração não bate no ritmo certo.
O elenco é, paradoxalmente, o que segura a série acima do puro sonífero. Bonham Carter sabe fazer o tipo “classe sem caixa” com uma facilidade quase ofensiva, e Martin Freeman chega com aquela presença de “agora sim alguém está atuando numa história com regras” — ele traz chão, timing, uma credibilidade que a série parece implorar. Ainda assim, nem ele faz milagre quando o texto insiste em ser máquina de plot: a narrativa joga suspeitos na mesa, espreme segredos familiares, flerta com conspiração política, puxa um fio de crítica social aqui, outro de trauma pós-guerra ali… e, no fim, você entende que o grande motor é o mesmo de sempre: propriedade intelectual entrando em linha de produção. O que deveria ser “Agatha Christie com personalidade” vira “Agatha Christie como pretexto”.
Se você entrar em Os Sete Relógios esperando o refinamento de um Poirot bem escrito ou a malícia elegante de um whodunit que respeita o prazer do mistério, você vai sentir falta de inteligência dramática — não aquela inteligência de “twist a cada 15 minutos”, mas a que cria atmosfera, suspeita, caráter. Agora: se você quer uma série curtinha (em episódios, não em duração), confortável, com cara de época e ritmo de “passa o tempo”, talvez ela funcione exatamente como a Netflix quer: você não ama, mas você termina. No fim, Os Sete Relógios é isso: uma adaptação que parece feita para o algoritmo, não para a Christie — e a ironia é que, com tantos alarmes em cena, o que dá vontade mesmo é apertar soneca.
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