Review Stranger Things 5a temporada

Review Stranger Things 5a temporada (Volume 1): sem firulas e muita emoção

O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: a review de Stranger Things – Temporada 5 (Vol. 1) contém spoilers e deve ser apreciada com moderação (e um walkman pronto para tocar Kate Bush se o Vecna te encostar).

STRANGER THINGS VOLTA COMO AQUELE AMIGO QUE VOCÊ AMA, MAS QUE AGORA CHEGA COM UM COMBO DE BAGAGEM, MUDAÇA DE HUMOR E UMA CASA OCUPADA PELO EXÉRCITO. Três anos de espera depois, os Duffer não perdem tempo: Hawkins está sob controle militar, a tal “falha sísmica” virou cicatriz aberta e todo mundo já opera no modo “guerra fria com o inferno”. Eleven treina com Hopper e Joyce; Mike, Will, Dustin, Lucas, Nancy, Jonathan, Steve e Robin caçam rastros do Vecna; Max permanece em coma como lembrete de que a conta da temporada passada ainda não foi paga. O Vol. 1 pisa no acelerador – é bom dizer: o início é forte, sem enrolação, com aquela energia de “vamos logo aonde interessa” que faltou a muita série grande por aí.

Só que, passado o choque do reencontro, o gigantismo da série volta a fazer o que sempre faz: mastigar a própria força. O plano dá errado (claro que dá) e o elenco se divide em grupinhos – tradição da casa que já rendeu combinações inesquecíveis (Dustin & Steve, Joyce & Hopper), mas que também cobra um preço salgado. Com o escopo inchado — mais lore, mais regras da mente do Vecna, mais quebradas do Upside Down — a narrativa vira aquele rodízio de cenas em que um momento explosivo some do mapa por meia hora até que a montagem lembre de nós e volte lá. É o paradoxo Hawkins: quanto mais gente a gente ama, menos tempo temos para amar cada um direito.

quantos episódios terá a quinta temporada de Stranger Things

A idade do elenco? Virou vantagem dramática. Os “miúdos” já não são miúdos e o texto usa isso a favor: Eleven está mais assertiva, curiosa, com segurança que não apaga sua vulnerabilidade; Mike tem seu momento de irmão mais velho com a Holly – provavelmente a sequência mais emotiva desses quatro episódios, daquelas que lembram por que nos importamos com essa família maluca desde 2016. Will continua carregando nas costas a bússola emocional da série, e cada vez que a câmera encosta nele a gente entende que a guerra com o Vecna é também uma guerra de identidade e pertencimento.

Mas o Vol. 1 também abraça riscos que vão dividir o fandom, e honestamente, eu prefiro assim do que a covardia nostálgica. Há revelações grandes (algumas previsíveis para quem vive de teoria no Reddit), outras corajosas; todas, porém, sofrem um pouco do intervalo absurdo entre as temporadas: a marretada emocional perde força quando o afeto ficou no congelador por três anos. E, por favor, alguém desliga o life support do triângulo Nancy–Jonathan–Steve: faz sentido no calendário da história, mas nove anos depois a trama amorosa já é fantasma que bate panela na casa sem acrescentar nada ao banquete.

Tecnicamente, a série continua um doce envenenado: produção monstruosa, direção segura, efeitos que evoluíram com o orçamento e um design de som que te abraça pelo pescoço. O problema é o que sempre foi desde a expansão em múltiplos frontes: a logística narrativa. Mesmo com episódios longos, o excesso de núcleos exige que cada cliffhanger espere sua vez no guichê. A temporada fica com cara de “Red Dawn sobrenatural” – o que é divertido – mas também de romance de banca com 20 personagens de POV – o que cansa.

E aí entra a pergunta que o Vol. 1 não responde (ainda): dá para aterrar esse jumbo? Os Duffer mostram apetite: tomam decisões que reconfiguram a percepção da série e não tratam a gente como plateia de parque temático. Tem set pieces marcantes, tem mindscape do Vecna que brinca com linguagem, tem o conforto da amizade posta à prova e, felizmente, nada de tédio. Mas também tem a velha armadilha: quanto maior a construção, maior a sombra – e a sombra, aqui, às vezes engole o coração.

Veredito: Stranger Things 5 – Vol. 1 é ambicioso, enérgico e emocional quando acerta, mas sofre com o próprio gigantismo e a fragmentação que dilui a catarse. Como prólogo do fim, funciona e empolga; como obra independente, é um bom álbum que merecia menos faixas e mais refrões. Se o pouso vier no Natal/Ano-Novo com menos dispersão e mais foco no núcleo que importa, dá para pendurar o taco no último dia de 1986 com a sensação de missão cumprida.

Nota CdB: ★★★½ / 5 (com asterisco de “reduz esse escopo e me abraça no final”).