Se você ainda acha que o cinema brasileiro de impacto se resume às ladeiras do Rio de Janeiro ou aos prédios cinzas de São Paulo, prepare-se para recalibrar sua bússola. O Centro-Oeste acaba de fincar sua bandeira no mapa do audiovisual de forma irremediável. “Cinco Tipos de Medo”, o novo longa do diretor mato-grossense Bruno Bini, acaba de ganhar seu primeiro trailer oficial, uma data de estreia confirmada para 2 de abril e um rastro de prêmios que já o coloca como um dos títulos mais aguardados do primeiro semestre de 2026.
Não estamos falando de uma promessa vaga. O filme foi o “dono da bola” na última edição do Festival de Cinema de Gramado, levando para casa nada menos que quatro Kikitos, incluindo os de Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Montagem. Para fechar com chave de ouro, o músico Xamã provou que seu talento transborda as rimas e conquistou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante.
Um mosaico de caos na periferia de Cuiabá
Inspirado em um caso real ocorrido na periferia de Cuiabá, o filme se propõe a ser o que Bini define como um “mosaico de histórias cruzadas”. A premissa é daquelas que prendem o espectador pelo pescoço: um confronto direto entre a violência urbana, o medo paralisante e a esperança que insiste em brotar em solo árido.
A trama gira em torno de personagens complexos e moralmente ambíguos. Bella Campos, em sua estreia nas telonas, interpreta Marlene, uma enfermeira que vive no fio da navalha entre o dever e o risco. No outro vértice dessa pirâmide de tensão está Sapinho, interpretado por Xamã. Sapinho não é apenas um traficante; ele é uma figura central na comunidade do Jardim Novo Colorado.
O roteiro bebe na fonte da realidade ao retratar o episódio em que os próprios moradores se uniram para pagar a fiança do criminoso. Por quê? Pelo medo — um dos cinco tipos explorados no filme. A ausência de Sapinho deixaria o bairro vulnerável à invasão de outras facções. É aquela velha e dolorosa máxima brasileira: às vezes, o “bandido local” é a única segurança que resta onde o Estado não chega.
Xamã e Bella Campos: Do palco para a sétima arte
Ver astros da música e da TV migrando para o cinema muitas vezes gera desconfiança, mas aqui a transição parece ter sido orgânica. Xamã já demonstrou em suas apresentações e videoclipes que possui uma presença de cena magnética, mas o Kikito de Ator Coadjuvante sela seu status como um ator a ser levado a sério. Ele traz para Sapinho uma humanidade necessária, fugindo do estereótipo do vilão de papelão.
Já Bella Campos, que conquistou o Brasil em novelas como Pantanal, traz uma densidade dramática que o gênero pede. Marlene é o coração emocional do filme, e sua química com o elenco — que inclui veteranos como Bárbara Colen (Bacurau) e Rui Ricardo Dias — eleva o patamar da produção.
Um esforço de guerra audiovisual
Realizar um filme dessa magnitude fora do eixo tradicional não é tarefa para amadores. A produção é uma parceria entre a Plano B Filmes (MT) e a Druzina Content (RS), unindo o Norte e o Sul para contar uma história universal. Bruno Bini, que já havia mostrado seu talento para o gênero no instigante Loop, reuniu uma equipe de mais de 180 profissionais de nove estados brasileiros.
O resultado é um thriller eletrizante que não deve nada às produções internacionais. Rodado em Cuiabá, Várzea Grande e Santo Antônio do Leverger, o longa aproveita a paisagem única do Mato Grosso para criar uma atmosfera de opressão e beleza. Como bem disse Luciana Druzina, CEO da Druzina Content, “é um thriller para viver junto, sentir cada virada e sair com a história na cabeça”.
O Cinema de Buteco analisa: O que esperar?
Se o trailer oficial servir de termômetro, “Cinco Tipos de Medo” é o tipo de filme que o espectador médio do Cinema de Buteco adora: narrativa não-linear, dilemas éticos pesados e uma montagem ágil. O filme já iniciou sua trajetória internacional, passando por festivais em Manchester e Havana, o que indica que a temática da violência e da sobrevivência em comunidades periféricas ressoa globalmente. No Brasil, a distribuição fica por conta da Downtown Filmes, a gigante que entende como ninguém o paladar do público nacional.
A escolha da data de estreia, logo após o burburinho dos festivais, é estratégica. O objetivo é transformar “Cinco Tipos de Medo” em um evento cultural. Em tempos de blockbusters genéricos de super-heróis, ver um filme que olha no olho da realidade brasileira com essa qualidade técnica é um alento.
O veredito antecipado: Prepare o coração. Se Bruno Bini mantiver a mão firme que demonstrou em seus trabalhos anteriores, Cuiabá será o cenário de um dos melhores thrillers policiais da década.

