Review Corta-fogo: paranoia em chamas

Corta-fogo (Firebreak) é aquele filme que já começa soprando fumaça na sua cara e perguntando se você tem pulmão pra aguentar. Em 90 e poucos minutos, a Netflix te entrega um thriller espanhol que mistura desastre natural e implosão familiar, e faz isso com uma sacada simples: incêndio florestal é o cenário perfeito para o pior tipo de pânico — o pânico que não te deixa nem pensar direito. A trama liga o motor com Mara (Belén Cuesta), viúva recente, voltando à casa de veraneio na mata para empacotar a vida e vender o que sobrou do “antes”. Só que o “antes” não cabe em caixa: a filha Lide (Candela Martínez), oito anos, quer ficar; a família tenta ajudar; o vizinho Santiago (Enric Auquer) aparece com gentileza; e o ambiente inteiro cheira a luto. Aí o fogo começa. E, quando a evacuação é recomendada, alguém percebe o detalhe que vira pesadelo: Lide sumiu.

Essa primeira metade é onde Corta-fogo te pega pelo colarinho. O filme avança quase em tempo real, com a casa virando labirinto, a mata virando ameaça, a família virando equipe de busca improvisada, e a sensação crescente de que a natureza não está “lá fora” — ela está fechando as saídas. O roteiro entende o terror universal: uma criança desaparecida já é o fim do mundo particular de qualquer pai/mãe; com fogo se aproximando, vira fim do mundo com cronômetro. E Belén Cuesta, que tem um rosto ótimo para pânico e culpa, segura essa energia com o tipo de desespero que não precisa de gritaria constante: você vê a mente dela queimando por dentro enquanto tenta manter o corpo em pé.

A virada do filme é também sua escolha mais arriscada: Corta-fogo abandona o “filme de corrida contra o incêndio” e vira um “thriller psicológico de desconfiança”. De repente, a pergunta deixa de ser “onde ela está?” e passa a ser “alguém fez isso?”. E aí Santiago, o vizinho prestativo, vira suspeito na cabeça de Mara — ou, no mínimo, vira a tela perfeita para projetar o medo. Esse deslocamento tem força (porque paranoia é um combustível tão eficiente quanto gasolina), mas cobra um preço: por um bom trecho, o incêndio vira quase um figurante. E quando você percebe que o fogo foi rebaixado a “arma de Chekhov” — aparece no começo, some no meio, volta quando convém — dá uma irritação legítima, porque a ideia original era boa demais para ser largada assim.

Ainda assim, o elenco salva muito do que poderia virar um “Prisoners genérico versão floresta”. Cuesta, Joaquín Furriel (como Luis, o cunhado) e Enric Auquer fazem um triângulo de tensão em que ninguém está confortável no próprio papel: não existe herói, não existe vilão confiável, só pessoas encurraladas tentando transformar pânico em lógica. O filme é melhor quando deixa o silêncio falar — quando a câmera observa alguém travando, alguém mentindo por autoproteção, alguém escolhendo uma versão da realidade porque a outra é insuportável. Diana Gómez (Elena) é subaproveitada, mas funciona como um raro ponto de racionalidade num ambiente em que a racionalidade está sendo asfixiada.

E quando o fogo volta, ele volta bonito — no sentido assustador da palavra. A fotografia de Elías M. Félix dá ao incêndio aquele caráter de entidade: sufocante, inevitável, hipnótico. A floresta em chamas vira uma parede viva, e o filme finalmente lembra o que prometeu no título: “corta-fogo” não é só uma técnica; é uma metáfora para tudo que a família tenta fazer ali dentro — criar barreiras para impedir que a tragédia se espalhe, mesmo sabendo que tragédia não respeita linha no chão.

O lado mais divertido (e meio perverso) é observar como Corta-fogo transforma gente “decente” em gente perigosíssima. Não por sadismo gratuito, mas por desespero: quando o tempo acaba, a moral vira artigo de luxo. A Mara que você conhece no começo — cansada, triste, tentando ser funcional — vira outra pessoa quando a suspeita cria raiz. E é aí que o filme acerta seu tema, mesmo quando perde foco: o incêndio maior pode ser o que acontece quando ninguém confia em ninguém, quando todo mundo precisa escolher um culpado só para não enlouquecer.

Não é à toa que o filme estreou na Netflix em 20 de fevereiro de 2026 e rapidamente foi parar no topo — em 23 de fevereiro ele aparece como #1 global no Top 10 de filmes da plataforma, segundo o rastreio do FlixPatrol. Ele tem apelo de maratona: curto, urgente, com gancho emocional forte e uma segunda metade que te faz discutir “quem está exagerando” (sempre uma delícia quando o thriller te obriga a escolher lado). Só não espere um desastre movie o tempo todo: Corta-fogo te promete fumaça e te entrega, por bastante tempo, veneno doméstico.

No saldo do Cinema de Buteco: Corta-fogo é bom no que importa — criar angústia — e irregular no que ele mesmo anuncia — a corrida contra a natureza. Quando está em modo “incêndio + mãe desesperada”, é adrenalina pura. Quando vira “suspeita + interrogatório + paranoia”, ele flerta com a repetição e se esquece do próprio fogo. Ainda assim, é um thriller eficiente, com atores grandes fazendo material médio parecer maior. E, num streaming lotado de “mistério morno”, isso já é uma vitória em chamas.