O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A crítica de Pânico 7 possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação.
NINGUÉM QUESTIONA A QUALIDADE DE PÂNICO (Scream, Wes Craven, 1996) e toda a importância da franquia para o cinema, principalmente tratando da “ressurreição” do subgênero slasher nos anos 1990. Independente do nível das continuações nunca ter chegado perto de bater o original, ainda assim, funcionam tanto para fãs quanto para quem gosta de cinema.
Mesmo os intervalos entre uma continuação e outra, acabam funcionando muito bem. Hoje é possível entender Pânico 4 (Scream 4, Wes Craven, 2011) como uma produção vanguardista recheada de discussões que hoje fazem total sentido. A releitura a partir de 2022, com novos personagens, também têm o seu valor. Mas não é a mesma coisa quando comparamos com a trilogia original com foco em Sidney Prescott (Neve Campbell).
Recuperar o foco, superando questões de bastidores, talvez seja o principal mérito de Pânico 7 (Scream 7, Kevin Williamson, 2026), uma irregular entrada da franquia. Saem de cena Melissa Barrera e Jenna Ortega (por conta de suas opiniões nutridas do mais puro bom senso à respeito do genocídio em Gaza) para dar espaço para a personagem que realmente move a série. Sidney não divide protagonismo ou entra no papo mole de passar o bastão. Aliás, a produção até reforça isso com tiradas engraçadas. Ela é a dona do show, com razão.
Assim como Pânico 3 (Scream 3, Wes Craven, 2000) antecipou o #MeToo incluindo personagens e situações que lembram muito os casos de monstros, como Harvey Weinstein e Jeffrey Epstein, ou Pânico 4 fala abertamente do desejo pela fama, o novo longa coloca a inteligência artificial (por meio dos deep fakes que podem transformar as eleições em um verdadeiro inferno no campo digital) como mecanismo principal de atuação dos seus vilões.
E aqui, preciso tirar o chapéu para o trabalho de Williamson como roteirista (o que não quer dizer que goste da sua direção — é o oposto, na verdade). Ele não apenas coloca um tema atual na discussão (com direito a piadas e manifestações contrárias daqueles que se esforçam para apontar apenas os problemas de uma ferramenta que veio para ficar), mas puxa uma teoria famosa entre os fãs: teria Stu Macher (Matthew Lillard) sobrevivido após ser atacado por uma televisão de tubo no original?
Lillard é o charme de Pânico 7, diga-se de passagem. Suas cenas são engraçadas e desconfortáveis. Como espectadores, compartilhamos o sentimento estranho das protagonistas de conversarem com um fantasma. O resultado é muito divertido, mas talvez seja parte dos grandes problemas narrativos da obra. É muito questionável como os vilões conseguiram reproduzir tão bem os trejeitos de Stu. É o roteiro pedindo licença: “olha, vou fazer isso que vocês pediram, mas aceitem as limitações, ok?”. Como se não fosse o suficiente pedir essa parceria, ainda sobra espaço para zombar dos fãs: “Porra, é claro que o Stu está morto! Você pensa o que?”
Outro problema é forçar demais nas falsas pistas e suspeitas. O namorado de Tatum (Isabel May) tem uma atitude muito suspeita e inexplicável, que se torna gordura do roteiro e gera uma impressão de enganação. As decisões para Lucas Bowden, outro forte suspeito, também forçam a barra. Pouco antes de morrer, ele “desaparece” enquanto outros personagens são atacados e morrem. A falta de audição dos personagens em Pânico 7 parece ser crônica. E extremamente conveniente.
Só não é pior que o descaso com os coadjuvantes. Nem mesmo Tatum escapa de ser apenas um número para gerar volume. Tudo é sobre Sidney e o confronto final com Ghostface. Cada peça ou personagem tem um papel descartável, onde não há tempo ou preparo para qualquer nível de profundidade. Ou noção. Como uma jornalista do calibre de Gale Weathers (Courtney Cox) deixaria passar a averiguação da pista falsa sobre Stu estar vivo?
Mas em nome do entretenimento, a gente consegue sim ignorar questões estruturais graves para se permitir ser premiado com quase duas horas de diversão sangrenta. E tá tudo bem.
Pânico 7 introduz novidades na franquia: se no filme anterior tivemos uma revelação breve (mas falsa) da identidade do assassino, agora temos um bode expiatório usado para gerar confusão e suspeitas. Isso é legal de ver. Até porque cria situações tensas e garante a melhor “entrada” de personagem na série: quando Gale surge salvando o dia. Ou a noite. Entenda como quiser.
Imperdível para quem cresceu com a franquia e vê como impossível separar Pânico do gênero slasher, a nova empreitada supera as conveniências para presentear o público com uma excelente opção de entretenimento sangrento. Tudo está lá: dos personagens que amamos até piadas engraçadinhas, brincadeiras e críticas ao contexto atual do mundo, mas principalmente as mortes elaboradas e sádicas. Poderia ser muito melhor nas mãos de qualquer diretor mais competente, mas o resultado está longe de ser uma bomba. Recomendo.

