Se a gente acabou de falar sobre Lord Byron, o rockstar “Louco, mau e perigoso de conhecer”, é obrigatório dar a palavra à pessoa que o imortalizou de outras formas: Mary Shelley.
Afinal, a maior obra de Byron, para a cultura pop, não foi escrita por ele. Foi arquitetada por ele — com a ajuda do tédio, da chuva incessante, de um vulcão (sim, um vulcão!) e de uma jovem de apenas 18 anos que estava prestes a parir a ficção científica moderna.
Esqueça as viagens glamourosas. O cenário da criação de Frankenstein é um estudo de caso sobre como a tragédia climática, o confinamento e um grupo de intelectuais extremamente problemáticos podem gerar arte atemporal. Prepare-se para conhecer o “Ano Sem Verão”, o evento que prova que a melhor coisa que pode acontecer a um poeta é ele ficar trancado em casa.
O Plot Twist Climático: O Ano Sem Verão (1816)
Para entender a origem de Frankenstein, precisamos olhar para a Indonésia.
Em 1815, o Monte Tambora explodiu em uma das maiores erupções vulcânicas já registradas. A quantidade monumental de cinzas e poeira na atmosfera cobriu o Hemisfério Norte, causando um fenômeno conhecido como o “Ano Sem Verão” em 1816.
Na Suíça, onde a alta sociedade geralmente se bronzeava, fez frio, choveu sem parar, e o céu estava cinzento e opressor. As tempestades eram constantes. Foi um ano de caos climático, colheitas perdidas e, para os românticos na Europa, o cenário perfeito para a melancolia gótica.
Festa Estranha com Gente Mais Estranha Ainda: A Villa Diodati
Em junho de 1816, na elegante, mas agora chuvosa, Villa Diodati, às margens do Lago Genebra, na Suíça, cinco pessoas que seriam o futuro da literatura (e da fofoca) se reuniram:
- Lord Byron: O anfitrião, poeta, sex symbol exilado por causa dos escândalos (lembra do incesto com a meia-irmã?). Ele havia fugido da Inglaterra.
- Percy Bysshe Shelley: Poeta gênio, idealista, marido à la carte de Mary e melhor amigo/fã número um de Byron.
- Mary Wollstonecraft Godwin (futura Shelley): Aos 18 anos, ela era a filha da feminista pioneira Mary Wollstonecraft e do filósofo William Godwin. Estava fugida com Percy (que era casado) e carregava o peso de múltiplas perdas e o estigma social.
- Claire Clairmont: Meia-irmã de Mary. Estava grávida de Byron (sim, o anfitrião!). Ela foi o principal elo para forçar a reunião.
- John William Polidori: Médico pessoal e secretário de Byron. Um cara ressentido, invejoso dos poetas famosos e que sonhava em ser reconhecido.
Eles estavam presos na mansão pela chuva e pelo tédio mortal.
O Desafio da História de Fantasmas e a Eletricidade
Para espantar o marasmo, o anfitrião Byron teve uma ideia que mudou o cânone literário. Depois de lerem contos de terror alemães (o Fantasmagoriana), Byron lançou o desafio: “Que cada um de nós escreva uma história de fantasmas!”
Para alimentar a imaginação, o grupo passava as noites discutindo o que era mais quente na ciência da época:
- Galvanismo: As experiências de choque elétrico que faziam corpos de animais mortos se contraírem. A ideia de que a eletricidade poderia “dar vida” era fascinante e assustadora.
- O “Moderno Prometeu”: A arrogância humana em desafiar os deuses ou a natureza para criar algo.
O resultado do desafio foi:
- Byron: Rascunhou um conto de vampiros (que ficou inacabado).
- Percy Shelley: Não saiu do rascunho.
- Polidori: Pegou a ideia de vampiro de Byron e a transformou em The Vampyre (O Vampiro), cujo vilão, Lorde Ruthven, era uma sátira maldosa do próprio Byron. Foi o primeiro conto moderno de vampiros!
- Mary Shelley: Ela não conseguia pensar em nada. Até que, numa madrugada, teve um pesadelo aterrorizante após as discussões. Ela viu um “pálido estudante de artes profanas” ajoelhado ao lado da coisa que ele havia criado, “uma máquina potente funcionando”, e o horror do Criador diante de sua Criação.
Esse pesadelo virou um conto, que, com o incentivo de Percy, ela transformou em um romance épico: Frankenstein: ou O Moderno Prometeu, publicado anonimamente em 1818. Mary tinha apenas 19 anos.
O Toque Pessoal: Tragédia e Rejeição na Obra
O sucesso estrondoso de Frankenstein veio de sua profundidade. Mary Shelley não escreveu apenas uma história de terror gótico sobre um monstro feito de pedaços de cadáver. Ela escreveu sobre rejeição, abandono e a responsabilidade do criador.
Isso ressoava profundamente com sua vida:
- Ela foi abandonada pelo pai após fugir com Percy.
- Ela perdeu uma filha recém-nascida antes do verão de 1816.
- Ela sentia o peso do julgamento da sociedade.
A Criatura de Frankenstein, rejeitada por seu criador (Victor, movido pelo egoísmo) e pela sociedade (movida pelo preconceito), é um espelho da própria solidão e trauma de Mary. É a tragédia pessoal elevada à ficção científica.
E é por isso que, duzentos anos depois, Guillermo del Toro faz questão de encerrar sua adaptação com a frase de Byron, que Mary conhecia tão bem: “O coração vai quebrar e ainda assim viverá quebrado.” Uma ode agridoce à sobrevivência do Criatura… e de Mary Shelley.

