Novo livro de Colleen Hoover vira fenômeno no Brasil

Resenha Mulher em Queda: o thriller que te vigia

Se Colleen Hoover é aquela autora que já fez meio planeta chorar em público (e a outra metade fingir que “era alergia”), Mulher em Queda chega como a versão dela com luvas de látex: um suspense romântico que entra na sua casa sem tirar os sapatos — e, pior, sem pedir licença. Lançado em 13 de janeiro de 2026, o livro acompanha Petra Rose, escritora best-seller em frangalhos depois de um filme baseado na obra dela ser estraçalhado pela crítica e pelo tribunal supremo da internet: o feed.

A premissa é deliciosamente cruel (e muito contemporânea): Petra está há 18 meses sem produzir nada que preste e decide se isolar numa cabana para “voltar a ser ela mesma” — frase que, em 2026, significa “sumir do Wi-Fi e tentar lembrar como o cérebro funcionava antes de notificação”. Então, no meio da noite, aparece um policial batendo à porta… e ele parece saído direto do livro que ela ainda nem escreveu. A partir daí, Mulher em Queda faz o que Hoover gosta de fazer: pega uma dor real (bloqueio criativo + exposição pública + ansiedade) e empacota em uma trama que é metade romance com faca escondida e metade “você tem certeza de que trancou a janela?”.

O que o livro acerta com força (e sem dó)

O primeiro grande mérito aqui é o tema. Hoover escreve sobre o impacto da cultura de internet em quem cria: a bolha que abraça, a mesma bolha que morde. Isso não é novidade no mundo, mas é novidade no “universo CoHo” com esse grau de autoparódia defensiva: o livro abre caminho deixando claro que não é “sobre ela”, o que só torna tudo mais irresistível para quem lê com radar ligado. É como alguém dizendo “não pense em um elefante”. Você já está no safári.

A segunda força é o ritmo. Hoover entende página como vício: capítulo curto, ganchos bem colocados, tensão que sobe como chá em chaleira esquecida no fogo. E ela usa uma estratégia que funciona: dá a você informação suficiente para achar que entendeu… e depois puxa o tapete com um sorrisinho. Vários leitores e resenhas destacaram justamente os plot twists e o efeito “só mais um capítulo”.

E sim: o componente de romantic suspense (aquela mistura de perigo com atração que costuma dar ruim, mas dá ótimo pra virar página) é o combustível da história. Nathaniel Saint, o detetive “bonito demais para ser coincidência”, funciona como gatilho narrativo e emocional — e também como aquele sinal de trânsito que você ignora porque está com pressa: mais cedo ou mais tarde, você vai ouvir a batida.

Onde o livro escorrega um pouco (mas não cai de vez)

Se existe um ponto em que Mulher em Queda pode dividir gente, é o arco emocional de Petra. A ideia de uma personagem quebrada tentando se recompor é ótima; o problema é que, em alguns momentos, a reconstrução dela parece depender demais da validação externa — como se a cura do trauma fosse um print de avaliação cinco estrelas. Essa crítica aparece em leituras que sentiram falta de um salto interno mais sólido, além do “o público voltou, então eu volto também”.

Também vale dizer: quem procura “literatura de frase sublinhável em caneta cara” pode achar a prosa mais funcional do que lírica. O motor aqui é trama, tensão, virada — não contemplação. O Washington Post, por exemplo, aponta essa sensação de estilo mais enxuto e voltado ao plot.

O que Mulher em Queda está realmente dizendo

Por baixo da história de cabana, polícia e desejo, o livro faz uma pergunta incômoda: quanto da sua identidade você terceiriza para desconhecidos? Petra é um retrato de quem vive sob julgamento constante — e o suspense não é só “quem é Saint?”, mas “quem a Petra vira quando decide usar a própria vida como laboratório narrativo?”. É uma metáfora bem malvada (no melhor sentido): criatividade como chama… e obsessão como gasolina.

Hoover, inclusive, falou sobre o custo da exposição e como se afastar de redes ajudou a proteger a própria criatividade — o que torna o livro ainda mais interessante como comentário sobre o nosso tempo, mesmo com o aviso de “isso é ficção”.

Veredito

Mulher em Queda é Colleen Hoover apertando o botão do thriller pop com mão firme: viciante, eficiente, provocativo, com romance suficiente para fisgar e paranoia suficiente para manter você trancando a porta duas vezes. Não é o tipo de livro que pede silêncio reverente; ele pede luz acesa e “só mais um capítulo”.

Se você gostou do lado mais sombrio de Hoover, especialmente do apetite por virar a mesa (alô, Verity), esse aqui tem boas chances de entrar na sua lista — e sair da sua cabeça bem depois do ponto final.