Luca Guadagnino fez um filme sobre acusações, culpa e moralidade deformada, mas a parte mais explosiva de Depois da Caçada (After the Hunt) talvez seja outra: a playlist. Enquanto Julia Roberts sofre, Andrew Garfield sua e Ayo Edebiri tenta sobreviver a monólogos acadêmicos, a trilha passeia de Trent Reznor & Atticus Ross a Tom Jobim, Caetano Veloso e… The Smiths. Isso mesmo: até o fantasma moral de Morrissey foi convocado para essa aula prática de “ética aplicada ao Spotify”.
Se você veio aqui com a pergunta básica — quais músicas tocam em Depois da Caçada? —, respira fundo. A resposta inclui jazz triste, bossa devastadora, indie deprimido e um debate ao vivo sobre se dá pra ouvir The Smiths sem assinar embaixo das entrevistas do tio Morrissey.
As principais músicas de Depois da Caçada
A trilha oficial lançada pela Nonesuch Records traz o score de Reznor & Ross e uma seleção de faixas que aparecem no filme, misturando clássico de concerto, jazz e pop-indie de cortar os pulsos de forma estilosa.
Entre as músicas mais importantes, estão:
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“A Child Is Born” – Tony Bennett & Bill Evans
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“It’s Gonna Rain” – Ambitious Lovers
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“Terrible Love” – The National
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“Nothing Left to Lose” – Everything But The Girl
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Peças de John Adams e György Ligeti, porque todo filme de gente horrível em campus chique agora vem com trilha de concerto contemporâneo pra legitimar a culpa.
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E, claro, as faixas instrumentais “After the Hunt, One / Two / Three”, compostas por Trent Reznor & Atticus Ross, que transformam cada corredor da faculdade numa espécie de purgatório sonoro.
Só que o tempero que faz a trilha realmente grudar na memória é o combo Brasil + Britânia problemática: Caetano Veloso, Tom Jobim e The Smiths, todos usados como comentário irônico sobre desejo, hipocrisia e essa maravilhosa arte moderna de cancelar pessoas enquanto você ainda ouve o álbum inteiro no fone.
The Smiths no meio do fogo cruzado: Morrissey x cancelamento
Sim, The Smiths tocam em Depois da Caçada — mais especificamente “Heaven Knows I’m Miserable Now”, clássico do miserabilismo britânico que cai como uma luva nesse zoológico emocional.
E Guadagnino não joga isso de fundo, ele enfia no texto. Tem uma cena em que a personagem da Chloë Sevigny estranha ouvir Morrissey num bar universitário, já que o cantor virou persona non grata entre progressistas depois de flertar com pautas de direita. A resposta da personagem da Julia Roberts é basicamente:
“Calma, isso é The Smiths, não é o tio Morrissey soltando monólogo no X (Twitter).”
Ou seja: Guadagnino transforma o filme numa espécie de seminário sobre cultura do cancelamento com trilha própria. De um lado, o argumento “não dá pra separar obra de artista”. Do outro, Roberts defendendo que você não precisa jogar “The Queen Is Dead” no lixo só porque Morrissey decidiu virar thread de fórum reaça.
A piada involuntária (ou totalmente voluntária, conhecendo Guadagnino) é que:
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O filme fala de assédio, abuso de poder e omissão;
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A trilha puxa justamente uma banda cujo vocal vira e mexe é pauta em discussões de cancelamento;
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E a cena em que isso é discutido acontece… num bar de college, berço oficial de gente que faz textão de 12 parágrafos sobre ética no consumo de cultura.
É tipo assim: o filme tá te perguntando “e aí, professor(a)? Você consegue ouvir The Smiths sem fingir que Morrissey não existe?”. E a trilha responde: “consegue sim, mas vai se sentir meio sujo depois”.
Caetano em Depois da Caçada: “É Preciso Perdoar” (mas ninguém quer)
Do lado brasileiro da tragédia sonora, o grande destaque é “É Preciso Perdoar”, que aparece associada à presença de Caetano Veloso no filme e em materiais de divulgação. Críticos locais já destacaram essa escolha, colocando Caetano ao lado de Tom Jobim como eixo emocional da trilha.A ironia é automática:
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A música fala de perdão, resignação, deixar ir;
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O filme, por outro lado, é sobre gente que não perdoa, não esquece e ainda reescreve a narrativa pra sair menos feio na foto.
A cereja do bolo é que, na trilha oficial, quem aparece tocando “É Preciso Perdoar” é o duo Ambitious Lovers em uma gravação que já tinha Caetano como figura recorrente em colaborações e universo estético. A playlist “curada” por críticos ainda inclui versão com Ryuichi Sakamoto, Cesária Évora e Caetano Veloso, só pra garantir que você saia do cinema direto pro banho de água fria existencial.
Em resumo: Caetano entra como o tio sábio da mesa que fala “é preciso perdoar”, enquanto os personagens preferem mandar e-mail pro advogado.
O final com Tom Jobim: “Ligia” como epitáfio afetivo
Se Caetano prepara o clima, Tom Jobim encerra o velório emocional. O desfecho de Depois da Caçada vem embalado por “Ligia”, e isso não é detalhe de cinéfilo chato, é decisão dramática. Críticas apontam que a canção entra na conclusão, reforçando a ideia de um amor impossível, negado, que nunca é assumido em voz alta – exatamente o tipo de sentimento mal resolvido que o filme esfrega na cara da protagonista.
“Ligia” é a trilha perfeita pra:
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gente que jura que já superou,
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mas continua girando em torno do mesmo trauma há décadas,
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enquanto faz cara de racional e cita filosofia em sala de aula.
Quando a música entra, não é só bossa nova chique de encerramento. É Guadagnino avisando:
“Você achou que isso aqui era um ensaio sobre ética, mas era só mais uma história de desejo, vergonha e covardia emocional com jazz e bossa de luxo.”
https://www.youtube.com/watch?v=9a7NKgBXvAw&list=RD9a7NKgBXvAw&start_radio=1
No fim das contas, a trilha é o verdadeiro veredito
Enquanto o público discute se Depois da Caçada é um grande filme ou um experimento confuso sobre #MeToo academia edition, a trilha sonora faz o trabalho pesado:
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The Smiths levantam o debate “pode separar obra de artista ou não?”,
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Caetano manda perdoar,
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Tom Jobim lamenta o amor impossível,
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Reznor & Ross garantem o clima de culpa em 7.1,
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e Guadagnino assiste tudo lá do fundo, feliz, porque fez você sair do cinema com um dilema moral e uma nova playlist salva.
Você queria só saber quais músicas tocam em Depois da Caçada.
Agora está preso entre ouvir “Heaven Knows I’m Miserable Now” sem culpa, chorar com “Ligia” e admitir que, sim, a trilha sonora entendeu esse filme bem melhor que metade dos personagens.

