a garota de miller

Review A Garota de Miller: Jenna Ortega, Martin Freeman e o incômodo que ninguém pediu

Miller’s Girl é o tipo de filme que parece ter saído direto da cabeça de um adolescente metido a gênio literário que acabou de descobrir Henry Miller e achou que o mundo precisava ver isso em tela cheia. A estreia da roteirista e diretora Jade Halley Bartlett é um thriller com açúcar e um toque de incômodo moral, daqueles que deixam você desconfortável por motivos que nem o filme consegue justificar direito.

Jenna Ortega interpreta Cairo Sweet, uma adolescente rica, entediada e autodeclarada “inteiramente sem graça” (o que já é mentira na primeira cena). Ela mora sozinha numa mansão no Tennessee, estuda literatura e anda pela casa como se estivesse em um videoclipe da Lana Del Rey. Acompanhada da melhor amiga Winnie (a hilária Gideon Adlon), Cairo decide seduzir seu professor de escrita criativa, Jonathan Miller (Martin Freeman, de suéter bege e alma cinza). Por quê? Porque sim.

Jonathan, por sua vez, é um escritor fracassado que virou professor, casado com uma esposa alcoólatra de robe de seda que parece ter saído de Desperate Housewives: Versão Depressiva. Em vez de correr da encrenca, ele aceita numa boa quando Cairo propõe escrever um conto erótico inspirado em Henry Miller. Spoiler: o texto é narrado intercalando cenas dela escrevendo e ele lendo com a expressão de quem encontrou pornografia na lan house.

O filme flerta com provocação, mas tropeça feio na intenção. Ao invés de explorar as complexidades desse tipo de relação ou discutir limites de poder e desejo, Miller’s Girl prefere fazer pose de polêmico com falas afiadas e monólogos pretensiosos. Parece uma versão indie e equivocada de Lolita com pitadas de Menina Má.com, só que sem ironia e sem timing.

Jenna Ortega, no entanto, segura a barra com um olhar que mistura apatia e vontade de tocar fogo no mundo. Sua presença é tão intensa que você quase acredita que o roteiro faz sentido. Quase. Martin Freeman é um figurante de luxo nessa história: é como se colocassem um boneco de cera da Sessão da Tarde para reagir a Ortega com cara de cu arrependido.

O problema maior é que o filme não sabe o que quer ser. Começa como drama, flerta com suspense, tenta ser fábula moral e acaba como ensaio fotográfico para Tumblr de 2013. Quando finalmente parece que vai acontecer algo relevante, o filme simplesmente… acaba. Nada se resolve. Nada muda. E você fica se perguntando se não teria sido melhor rever Meninas Malvadas mesmo.

Em resumo: Miller’s Girl é um filme bonito, maldoso e vazio. Tem bons atores, boas intenções estéticas e zero noção do que está dizendo. Quer ser transgressor, mas é só desconfortável. Quer ser arte, mas parece fanfic. Quer ser Henry Miller, mas é mais Henry do PowerPoint.

Mas vale ver pela Jenna Ortega. E só. O resto você já viu melhor no seu grupo de WhatsApp da faculdade de Letras.