Review A Montanha dos Sete Abutres: Um dos melhores filmes sobre jornalismo já feitos

Texto escrito em 2012

A OUSADIA DE SE FALAR DE UM CLÁSSICO É SEMPRE MOTIVO PARA CAUSAR ARREPIOS NO ESTÔMAGO, mas quando se trata de um cineasta do calibre de Billy Wilder, é preciso deixar de lado algumas ressalvas pessoais e simplesmente falar de um grande clássico do cinema, especialmente para os cinéfilos que trabalham com comunicação. A produção estrelada por Kirk Douglas é tida como obrigatória nas aulas de jornalismo e não fica difícil entender os motivos, pois poucos filmes são tão eficientes na hora de abordar a ética e a moral de um profissional.

Lançado em 1951, A Montanha dos Sete Abutres nos prende do começo ao fim, como é habitual nos filmes de Wilder. Um ambicioso e inescrupuloso jornalista (Douglas) é enviado para cobrir um evento bobinho e sem graça, mas no meio do caminho a sorte bate em sua porta e ele se vê diante de uma grande história capaz de coloca-lo entre os grandes jornalistas e conseguir recuperar o trabalho em Nova York. Durante uma parada para abastecer o carro, ele descobre que houve um acidente dentro de uma mina e que um homem havia ficado preso.

Chuck Tatum (Douglas) deixa de lado a chance de salvar uma vida e decide se autopromover diante a tragédia, que acaba virando um circo, literalmente. Ao mesmo tempo em que manipula a notícia de forma para ganhar destaque e exclusividade, ele se envolve com a esposa da vítima e desdenha de seus colegas de outros jornais e seu ex-chefe. O tempo avança e o resgate acaba se alongando mais que o necessário, tornando inevitável um desfecho infeliz.

Como é de costume nos filmes de Wilder, os personagens são fortes e possuem grandes falhas de caráter, o que faz um grande contraste com o quanto cada um deles consegue ser carismático apesar da personalidade estragada e corrompida. Tatum é quase um irmão de Don Birnam (Ray Milland), em Farrapo Humano; ou de Joe Gillis (William Holden), de Crepúsculo dos Deuses: ele é defeituoso e se deixa levar pelo momento de glória. Curiosamente, A Montanha dos Sete Abutres foi o primeiro filme de Wilder após o fim da parceria com o roteirista e produtor Charles Brackett (que realizou os dois filmes citados anteriormente).

Durante uma cena, o personagem chega a zombar da escola de jornalismo, afirmando que a profissão se aprende na rua e que os três anos que seu ajudante passou na sala de aula foram desperdiçados. Embora seja uma frase de impacto, ela não é de todo errada e sequer vale apenas para o curso de comunicação, já que boa parte das nossas experiências profissionais realmente só acontecem quando colocamos a mão na massa fora do ambiente acadêmico. Não deixa de ser muito curioso uma produção de 1951 abordar um tema tão polêmico e que recentemente iniciou uma grande discussão em torno da importância ou não do diploma. Será que ele seria o suficiente para modificar o caráter de Tatum?

Além dos personagens bem desenvolvidos e que atraem o público independente de serem ou não “boas pessoas”, A Montanha dos Sete Abutres também possui outra característica marcante na carreira de Wilder: o aspecto de “conto de fadas” e com uma certa lição, ainda que as coisas não tenham saído muito bem para Tatum. De forma alguma essa vontade de mostrar que o “lado negro” não compensa chega a ser moralista, já que trata-se de um filme que cumpre bem o seu papel. Uma verdadeira aula de cinema, indispensável para os cinéfilos, principalmente aqueles que estão estudando jornalismo.

Nota: