“A avaliação mais sincera de um filme, quem faz, é a pele – que arrepia. A garganta aperta, a pupila dilata… E quando Pandora surge, imensa, tudo fica pequeno.” Essas são palavras narradas por Fernanda Montenegro em uma das ações promocionais para Avatar – Fogo e Cinzas, o terceiro capítulo da exuberante franquia cinematográfica de James Cameron, que está atualmente em exibição. O texto falado pela icônica atriz atribui às sensações e reações do corpo o status de selo crítico incontestável de qualidade. Uma jogada compreensível e coerente do time de planejamento estratégico do longa, que parece ter plena ciência, assim como Cameron também tem, de que Avatar sobrevive com folga nessa indústria porque tem, acima de tudo, o povo. A essa altura do campeonato, todos já entendemos que a ambição ali não está orientada para a conquista dos críticos mais ferrenhos ou ser considerado para concorrer as categorias mais prestigiadas da temporada de premiações. Está em elevar a experiência sensorial cinematográfica a níveis sem precedentes, dando ao cinema um status de experiência única e imersiva que não se replica em casa. Qualquer conquista além disso, é naquele esquema: se colar, colou.
O objetivo foi alcançado com sucesso, muito sucesso. A empreitada tecnológica de Cameron deu tão certo que o alçou pela segunda vez na carreira ao posto de maior bilheteria de todos os tempos com o primeiro Avatar, de 2009, e treze anos depois ao patamar de único diretor a ter três filmes que bateram os 2 bilhões de dólares em arrecadação, após a temporada de Avatar – O Caminho da Água nos cinemas.
Dezesseis anos, três filmes e várias horas de IMAX 3D imersivo depois, o que fica evidente sobre Avatar – Fogo e Cinzas (e sobre toda a franquia) é que o que sobra em esmero técnico e revolução tecnológica, falta em ambição e habilidade narrativas. Fogo e Cinzas começa poucas semanas após os eventos finais de O Caminho da Água: a família Sully continua a viver entre os Metkayina, a tribo do oceano, enquanto lidam com o luto pela morte de Neteyam, o filho/irmão mais velho; em paralelo, apesar de terem sido massacrados na última batalha contra os Na’vi, os humanos continuam empenhados em se apossar dos recursos naturais de Pandora, insistindo na mesma dinâmica predatória e violenta de caça aos tulkuns (as “baleias” desse universo) como retratado no filme anterior; o coronel Quaritch, por sua vez, permanece implacável em sua busca por vingança contra Jake Sully e qualquer ser vivo que entre em seu caminho para atrapalhar. Como se vê, o mundo de Pandora não teve tempo hábil o suficiente para mudar suas dinâmicas narrativas, o que tem feito com que Fogo e Cinzas não raramente seja apelidado (justamente!) nas redes sociais como “O Caminho da Água – parte 2”.
Enquanto o segundo filme da franquia dava a impressão de ter sido criado a partir de dois roteiros que foram colados para parecer um só, fazendo um intercâmbio nada natural entre filme de vingança e filme de pertencimento, Fogo e Cinzas consegue ser, além de repetitivo e ainda mais fragmentado do que seu antecessor, pobre em peso dramático ao abordar seus vários temas em cena: vingança, pertencimento, resistência, luto, redenção, fé… James Cameron tenta fazer um épico de três horas com alguns dos assuntos mais densos que se poderia escolher para trabalhar, mas seu texto parece não ter profundidade o suficiente pra segurar a carga. Nos momentos em que acerta, acerta razoavelmente bem – destaque aqui para alguns diálogos desconfortáveis e sinceros entre Jake e Neytiri. Nos demais, sobram diálogos e falas diluídos e pouco convincentes, resultando em momentos que não trazem o punch que poderiam. Há que se perdoar um bocado; afinal, quando se trata de cinema, Cameron parece render muito mais quando assume a posição de engenheiro do que de dramaturgo (fico pensando como seria a carga emocional desses filmes nas mãos de um Peter Jackson e sua equipe de roteiristas).
Para não dizer que não há novidades, temos algumas (poucas) adições interessantes nesse universo, que se não servem para elevar a história e transformar sua dinâmica, ao menos estão ali para atestar a pluralidade dos povos de Pandora: o clã dos Comerciantes do Vento, uma tribo nômade que viaja pelos céus de Pandora em grandes embarcações puxadas por criaturas aéreas semelhantes a arraias e águas-vivas; e o Povo das Cinzas (mais central na narrativa), uma tribo hostil e violenta de saqueadores com uma relação peculiar com o fogo, liderados pela mística e agressiva Varang, sua líder espiritual e militar. Também é justo fazer uma menção honrosa para aquele que, talvez, seja o melhor momento de ação do filme – uma excelente sequência de resgate que se passa em uma espécie de cidade industrial futurista. Este é um ótimo exemplo para demonstrar que às vezes, para trazer algum frescor a uma história, não há necessidade de reinventar a roda. Uma simples mudança de ares bem-feita pode ser o suficiente. A natureza de pandora é maravilhosa, mas seria muito benéfico poder ver mais dessa disrupção cenográfica nos futuros filmes da franquia.
No fim do dia, o que resta à Fogo e Cinzas é dar tudo de si fazendo o que a franquia Avatar faz de melhor – oferecer uma apoteose cinematográfica de ação como raramente se vê. As batalhas no céu estão ainda mais épicas, os confrontos no mar continuam com uma escala absurda e os embates corpo a corpo têm uma fisicalidade impressionante. Nada ali parece falso. Não tem jeito, James Cameron filma cenas de ação como ninguém. Uma pena que a plataforma para todo aquele espetáculo visual seja, quase que totalmente, a repetição. Tendo assistido ao filme e pensando nas recentes entrevistas do diretor, onde ele não dá certeza se veremos as já prometidas futuras continuações da franquia no cinema, só consigo pensar que Cameron sabe que se repetiu, e não tinha certeza se crítica e (principalmente) público iriam abraçar este terceiro capítulo com o mesmo carinho e empolgação de outrora.
Mas a julgar pelo desempenho nas bilheterias, parece que sim, o homem irá conseguir mais uma vez. Pois então que Avatar – Fogo e Cinzas cumpra seu papel de blockbuster arrasa quarteirão, e que seu criador também leve a sério o sinal de alerta que ele representa, para que os futuros filmes ao menos tenham uma dose mais digna de novidade e empenho narrativo. Afinal, testar constantemente a boa vontade do público pode não ser um bom negócio a longo prazo.
