Há quem jure de pés juntos que o amor é um acidente geográfico: ele te atropela na esquina onde você menos espera. E se tem alguém que viveu essa colisão frontal entre a fantasia e a sarjeta, essa pessoa foi Holly Golightly. Baseado na obra de Truman Capote, Bonequinha de Luxo é muito mais do que um catálogo de moda dos anos 60 ou um comercial estendido da Tiffany’s. É um tratado sobre a arte de fingir ser quem não se é para suportar o peso de quem se tornou.
Holly, vivida por uma Audrey Hepburn que transformou um vestido preto e uma piteira em ícones religiosos, é a “moça da cidade” com o fuso horário de um morcego. Ela dorme quando o sol nasce e vive quando as luzes de Nova York se acendem, sempre esquecendo as chaves de casa e irritando o vizinho do andar de cima. No seu apartamento quase vazio, mas lotado de gente da alta sociedade, ela encena uma vida de glamour que cheira a perfume caro e a um vazio existencial ainda maior. Todos conhecem Holly, mas ninguém sabe quem ela é — até que Paul Varjak, um escritor que ela decide apelidar de Fred para projetar nele a saudade do irmão, se muda para o prédio.
Se a gente fosse olhar sem o filtro romântico de Hollywood, a verdade seria crua: ambos são farsas ambulantes. Holly é a “bonequinha” do título, uma acompanhante de luxo que sobrevive dos “mimos” de homens ricos enquanto foge de um passado de terra batida no interior. Ela é a menina que casou aos 14 anos com um fazendeiro e trocou o nome de Lula Mae pelo brilho falso da Quinta Avenida. Paul, por sua vez, é um escritor que escreve pouco e “socializa” muito com a mulher rica que o sustenta. São dois náufragos tentando manter a cabeça fora d’água em um mar de coquetéis e falsidades.
A amizade entre os dois é o que ancora o filme na realidade. Paul descobre a farsa quando o passado de Holly bate à porta em forma de um marido abandonado, mas, em vez de fugir, ele se apaixona pelo caos dela. Ele resolve mudar de vida, mas Holly prefere continuar correndo. Ela quer a segurança de um casamento com um ricaço brasileiro — o que, convenhamos, é um toque de genialidade cômica do roteiro. Ela quer o ouro, enquanto o que ela realmente precisa é de alguém que a ajude a encontrar o gato sem nome que ela mantém como metáfora da sua própria falta de pertencimento.
Falar de Audrey Hepburn é falar desse filme. Ela varre a sujeira da vida para debaixo de um tapete de seda com uma elegância que te faz esquecer que ela está, em suas próprias palavras, lidando com “porcos” para sobreviver. Holly é adorável justamente porque sua alegria é uma tática de guerra contra a dor de ter um irmão na frente de batalha e uma origem que ela tenta apagar com colares de pérolas. Ela é meiga, é fútil, é profunda e é desesperada.
No fim das contas, Bonequinha de Luxo não é sobre joias. É sobre o momento em que a máscara cai na chuva e você percebe que não pertence a lugar nenhum — e que talvez a única liberdade real seja aceitar pertencer a alguém. É um filme que continua sendo uma referência absoluta não porque é bonito, mas porque entende que, por trás de cada vitrine brilhante, existe alguém apenas tentando não ter um “dia vermelho” sozinho.

