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Review Infidelidade: quando o vento levanta a saia e a culpa levanta o corpo — Adrian Lyne acende o fósforo e deixa a gente queimar

Vamos direto: Adrian Lyne volta ao ringue do desejo com luva de veludo e soco de ferro. Em Infidelidade (Unfaithful, 2002), ele retoma a sua obsessão favorita — sexo como gatilho de catástrofe emocional — e faz da história de Connie (uma Diane Lane incendiária) e Edward (um Richard Gere contendo o vulcão com uma poltrona) um estudo sobre como o desejo não pede licença. Você conhece a sequência: vento em Nova York, uma saia rodando com a malícia da Marilyn e, pimba, Olivier Martinez cai no colo dela junto com os livros. Lyne filma o acaso como se fosse destino e o destino como se fosse uma mão deslizando pela nuca.

A primeira meia hora é um tratado de mise-en-scène erótica: a ventania que “apresenta” Paul, o francês-bibliotecário sedutor; o curativo que vira convite; o livro com telefone dentro que pisca “me liga quando o marido sair”. Connie está casada, tem filho, tem rotina — e tem um apetite que não cabe nas gavetas. Lyne não demoniza: ele mostra o curto-circuito. Quando a coisa desanda de vez, vem o banheiro do restaurante — sim, aquela cena, uma coreografia de urgência onde tesão, vergonha e liberdade se beijam na parede fria. A amiga moralista diz “isso não vai acabar bem”; a amiga safada ri de nervoso; Connie volta à mesa desgrenhada e com o batom pedindo perdão. Lyne ri por trás da câmera: o proibido ilumina como neon.

O marido percebe. Sempre percebe. Não precisa ser Batman: precisa viver com alguém há anos. Edward é o inverso do francês: carinho e estabilidade. O que ele não dá é o abismo, e é no abismo que Connie reaprende a respirar. O filme não se protege atrás do moralismo de auditório. Lyne filma gente normal fazendo escolhas perigosas, e o faz com uma frieza elegante: ninguém aqui é vilão de cartoon. A monogamia, sugere o diretor, é um acordo; o desejo, uma fome. Às vezes combinam, às vezes brigam. Quando brigam, o cinema agradece.

E então vem o estalo: Edward descobre. O detetive, as fotos, a humilhação doméstica explodindo na cabeça de um homem que respira pelo nariz. Lyne empurra o melodrama para a tragédia numa cena seca, cruel, quase banal: um presente “romântico” vira arma, um golpe, silêncio, o corpo de Paul no tapete. Sem fanfarra. É o tipo de gesto que muda casas inteiras. A partir daí, o filme vira um pacto tenso entre dois estranhos que um dia foram marido e mulher: você me traiu; eu matei; e agora? Lyne, esperto, não absolve ninguém. Apenas observa. E observa com um sarcasmo discreto: se a ventania levantou a saia, a culpa levanta o peso do que vem depois — polícia, escola do filho, jantares onde ninguém engole nada.

Diane Lane dá o papel da vida: cada microexpressão dela conta uma história — a vergonha prazerosa, o riso que vira soluço, a fantasia que atropela a prática. Richard Gere faz o homem comum que, empurrado ao limite, vira notícia. Olivier Martinez é a fantasia com CEP: mais função dramática que pessoa, e funciona. Lyne, maestro do erotismo de sala de estar, filma pele como quem filma prova de crime: toda carícia é evidência. Quando a gente acha que ele vai sentar no sermão, ele volta ao que interessa: o corpo como campo de batalha. Infidelidade não é tese, é febre. E febre, você sabe, ou passa… ou deixa cicatriz.

No fim, o filme continua mordendo porque recusa o conforto: não dá manual, dá responsabilidade. Todo adultério é uma ficção privada; Lyne só acende a luz e nos obriga a ver quem a gente vira quando a porta fecha. Se você queria um veredito moral, sinto muito. Aqui o juízo é da plateia — e a sentença é do travesseiro.


FAQ de Infidelidade (2002) — versão turbo

Keyword principal desta crítica
crítica Infidelidade 2002 Adrian Lyne (Diane Lane, Richard Gere)

Preciso ver outros filmes do Adrian Lyne antes?
Não, mas ajuda entender o estilo: 9½ Semanas de Amor, Atração Fatal, Proposta Indecenteerotismo + consequência.

O filme é “a favor” da traição?
Nem pró, nem contra. Observa e complica. Mostra desejo, culpa e o preço de cada escolha.

É só romance proibido?
É romance carnal que descamba para a tragédia doméstica. O amor aqui vem depois do impulso.

As cenas de sexo são explícitas?
São quentes, filmadas com elegância e intenção dramática. Zero pornografia, 100% narrativa.

A cena do banheiro é tudo isso mesmo?
É. Urgência + risco + montagem afiada. Lyne explica a personagem sem diálogo.

Diane Lane foi indicada a prêmios?
Sim, a atuação é arrasadora. (E basta assistir para entender por quê.)

Richard Gere está bem ou só bonito?
Os dois. Ele segura a curva da culpa com sobriedade e um olhar que pesa uma tonelada.

O “francês” é um vilão?
É fantasia com CPF. Nem santo, nem demônio: o imã que revela a rachadura do casal.

Tem moral da história?
Tem consequência, não cartilha. Lyne não entrega lição pronta: entrega dilema.

É um thriller?
É um drama erótico que vira thriller íntimo no ato final. Sem perseguições, com silêncios que doem.

Dá para ver em casal sem treta?
Depende do casal. O filme é assunto para depois. (Talvez melhor um vinho junto.)

Vale rever hoje?
Sim. Envelheceu melhor que muitos “adultérios de streaming”. A mise-en-scène ainda ensina meia indústria a filmar desejo.

Tem gatilhos?
Adultério, violência, culpa e luto. Nada gratuito; tudo dramaticamente necessário.

Comparável a qual?
Pense em Atração Fatal sem a histeria final, com pena de quem erra. E ecos de Shame no descontrole.

Veredito em uma linha?
Desejo acende, culpa queima, Lyne filma — e a gente arde junto.