o segredo: ouse acreditar

Review O Segredo: Ouse Sonhar: é o filme que tenta pagar boleto com “vibração” — e ainda acha romântico beijar no estacionamento do Waffle House

O Segredo: Ouse Sonhar é aquele tipo de filme que entra na sua sala sem tirar o sapato e começa a rearrumar sua vida com frase de almanaque. Você está endividado, exausto, com telhado vazando e ansiedade pingando do teto? Relaxa. Você só precisa querer com força. O longa pega o mundo real — boletos, luto, pressão, exaustão — e trata tudo como se fosse um mau hábito: “já tentou ser otimista com mais disciplina?”

Aí vem a protagonista, Miranda (Katie Holmes), viúva, mãe, trabalhadora, e o roteiro faz questão de empilhar problemas nela como se estivesse montando uma pirâmide de sofrimento só pra depois derrubar tudo com um “universo, faça sua parte”. Ela gerencia restaurante, filhos e uma casa que parece estar em negociação direta com a gravidade. Pobreza aqui não é estrutura social, é decoração dramática: serve pra você reconhecer o “antes” do milagre.

E então, como se o destino tivesse assinado um contrato de “marido por assinatura”, entra Bray (Josh Lucas), um professor/salvador/encanador emocional que aparece com um envelope misterioso e a energia de quem acordou pronto pra resolver não só o telhado, mas sua autoestima. Ele conserta carro, conserta casa, conserta humor, conserta o roteiro — e, se deixassem, consertava até o mercado financeiro com um ímã e um clipe de papel.

Sim, porque o filme tem a pedagogia espiritual de uma aula de ciências do quinto ano: “Pensa, atrai.” É a lei da atração como app de delivery: você deseja pizza, a pizza chega. Você deseja amigos na festa, eles aparecem. Você deseja um pônei… bom, não vou estragar a “surpresa”, mas digamos que o universo nesse filme trabalha em escala de estoque ilimitado, sem frete e sem crise logística. O furacão destrói a cidade, mas o Bray encontra material de construção com a mesma facilidade com que encontra metáforas prontas. O apocalipse passa, o roteiro dá um joinha.

O problema não é o filme ser brega — brega bem feito às vezes é remédio. O problema é ele ser brega com ar de revelação. The Secret se vende como inspiração, mas entrega um pacote de platitudes que funciona melhor como meme. Ele reduz dor humana a falha de mindset. É quase um terror psicológico… só que do tipo que tenta te convencer que tudo se resolve com “vibração alta” e um sorriso educado. O mundo real vira figurante inconveniente.

E romance? Existe, tecnicamente. Mas química mesmo acontece entre Bray e a caixa de ferramentas. Holmes e Lucas são atores competentes presos num relacionamento escrito com cola quente. A atração entre eles é tão fabricada que você sente o cheiro do set. E quando o filme acha que está entregando “momento icônico”, ele te joga num beijo que parece ter sido aprovado por um comitê: “Precisamos de um beijo final… serve aqui mesmo, no estacionamento.” E serve. O cinema, às vezes, também precisa pagar conta.

Claro que, pra completar o combo, o conflito do terceiro ato aparece do jeito mais preguiçoso possível: aquele segredo que resolveria tudo se duas pessoas conversassem como adultas por cinco minutos é guardado até explodir em público, no meio de um evento feliz, porque roteiro de comédia romântica tem alergia à comunicação. E aí você vê o filme se esforçando pra ser dramático quando ele já era engraçado sem querer.

No fim, The Secret: Ouse Sonhar funciona melhor quando você para de fingir que ele é “profundo” e aceita que ele é um Hallmark com ambição de palestra. Assistir é como comer sobremesa industrializada: doce, fácil, meio artificial e, se você pensar demais, estraga. A única “lei da atração” que realmente opera aqui é a do streaming: você dá play achando que vai se inspirar e termina rindo do quanto o universo do filme é basicamente um funcionário obediente do roteiro.