review springsteen salve-me do desconhecido

Review Springsteen: Salve-me do Desconhecido: Este NÃO é apenas mais um filme de rockstar.

O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: a review de Springsteen: Salve-me do Desconhecido possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação.

poster springsteen salve-me do desconhecido QUEM PRECISA DE MAIS CINEBIOGRAFIAS DE ASTROS DA MÚSICA? Arrisco dizer: todo mundo que ainda tem uma boa saúde auditiva. Apesar de deslizes recentes (Bohemian Rhapsody, de Bryan Singer e Dexter Fletcher), o saldo geral é positivo. Só este ano já fomos presenteados com Um Completo Desconhecido (A Complete Unknown, de James Mangold), Better Man (de Michael Gracy) e Homem com H (de Esmir Filho): produções sobre Bob Dylan, Robbie Williams e Ney Matogrosso, respectivamente. A temporada ficou ainda melhor com Springsteen: Salve-me do Desconhecido (Springsteen: Deliver Me from Nowhere, 2025, Scott Cooper).

Depois da turnê massacrante de The River, Bruce Springsteen não quer festa, não quer champanhe com executivo de gravadora: ele quer sumir. Ele se fecha, entra em curto com a própria cabeça e começa a cuspir músicas cruas demais pro gosto dos engravatados — canções que soam mais como bilhetes de urgência do que como singles de rádio.

Springsteen também é conhecido como The Boss. O apelido nasceu no começo da carreira: ele era o cara que organizava a agenda e dividia o dinheiro da gig entre os músicos. Chamavam ele de “boss” meio de zoeira — e ficou. Durante anos, esse mesmo cara recusou qualquer tentativa de virar cinebiografia. Nunca parecia certo. O mais perto que a gente chegou foi um especial na Netflix registrando seus shows concorridos na Broadway. Agora, finalmente, ele aceitou ser filmado.

E existe um detalhe que faz o filme respirar diferente do restante das produções do subgênero. Assim como acontece no excelente Rocketman, existe aqui uma nudez emocional pouco comum em cinebiografias de estrelas. A história não está interessada só em carreira, mas em ferida aberta. O filme trata com cuidado (e sem muita anestesia) o relacionamento entre Bruce e o pai. Tem uma sequência — a mais forte do longa — em que, no momento em que ele começa a desmoronar, Bruce alucina a presença da mulher que ele deixou para trás, do próprio pai e dele mesmo criança. É quando a pose cai. Ele está diante do amor que estragou, do homem que mais teme virar e do garoto assustado que nunca sumiu. Ninguém precisa dizer nada pra cena esmagar.

Mais que “apenas mais uma cinebiografia”, Scott Cooper usa Springsteen pra falar de saúde mental, depressão e autopreservação. E faz isso sem transformar as músicas em muleta emotiva. Arrisco dizer que o filme até se sustentaria sem a trilha — e isso já diferencia ele de 90% do subgênero. Pra nossa sorte, ele não precisa escolher: existe um bom drama aqui, e existe Bruce Springsteen.

Mesmo que você não seja fã hardcore do cara, o longa ainda abre espaço pros bastidores da gravação de Nebraska (1982), sexto álbum da carreira dele e um dos trabalhos mais sombrios e crus do rock americano. Acompanhamos o processo: letras que brotam de culpa e memória, a paranoia pós-turnê, a sensação de que ele está literalmente tentando se manter inteiro através da gravação. Vemos também as influências — desde lembranças de infância até filmes como Terra de Ninguém (Badlands, Terrence Malick, 1973) e O Mensageiro do Diabo (The Night of the Hunter, Charles Laughton, 1955). Esse último pesa mais porque cola diretamente na figura do pai e no medo de repetir essa dureza em cadeia.

Agora, honestidade: Springsteen: Salve-me do Desconhecido não é revolucionário e não entra numa lista de melhores cinebiografias de todos os tempos. Ele ainda respeita certas marcas do gênero, ainda tem aquela costura de “momento da vida que representa a vida inteira”. Mas ele compensa isso sendo muito mais íntimo do que plástico. Ele olha pra dor antes de olhar pra lenda.

E essa intimidade segura muito nas atuações.

Jeremy Allen White não é exatamente a cara do Springsteen, mas a câmera faz truque de mágica nos closes: suor grudando na pele, olhos piscando rápido demais, aquele corpo inquieto de quem não dorme direito há semanas. Ele não imita o Bruce; ele encarna a pressão de ser o Bruce. É uma entrega tão física e tão vulnerável que já dá pra falar em Oscar sem soar forçado.

Só que ele não carrega isso sozinho. Jeremy Strong aparece como a mente de bastidor — obsessivo, pragmático, aquele tipo de lealdade tensa que tenta proteger o artista e, ao mesmo tempo, empurrar o projeto pra nascer do jeito certo. Ele olha pra Springsteen como quem sabe que está assistindo um disco histórico acontecer em tempo real.

E Stephen Graham, em pouco tempo de tela, resolve o pai. Ele traz a dureza operária, pesada, incômoda, mas nunca cai na caricatura do monstro abusivo versão filme de domingo. Ele é assustador porque é humano. É dali que vem metade do fantasma emocional que persegue o Bruce do filme.

No fim, Springsteen: Salve-me do Desconhecido não está só interessado no mito do Boss nem só no nascimento de Nebraska. O filme está olhando pra essa coisa chamada depressão — esse buraco que transforma viver em simplesmente aguentar o dia seguinte. Cooper filma isso sem glamour, sem pílula mágica, e ainda entrega a obra como um bilhete de filho para pai (a dedicatória nos créditos finais crava isso sem pudor). É menos um monumento à lenda e mais o retrato de um homem tentando não desabar.