O ano era 2006, e “Terror em Silent Hill” era lançado nos cinemas. A adaptação do diretor Christophe Gans baseada na famosa franquia de games de terror, levava elementos do primeiro jogo e do universo da série de games para a tela grande pela primeira vez. A premissa do filme era a busca de uma mãe por sua filha desaparecida na nevoenta e vazia Silent Hill, após um acidente durante o trajeto até a misteriosa cidade, onde Rose – a protagonista – se dirigia em busca de respostas sobre os pesadelos de sua filha envolvendo o local. “Terror em Silent Hill” não chegou a ser um grande sucesso de bilheteria, mas possuía uma consistência que até hoje muitas adaptações de games sentem dificuldade em entregar. Tínhamos ali um elemento emocional forte personificado na jornada de uma mãe à procura da filha sob circunstâncias misteriosas; aliado a um contexto sobrenatural, com a história sendo ambientada em uma cidade aparentemente hostil onde o perigo se fazia sentir a todo momento, fosse pelo ambiente denso e soturno, ou pelos seres estranhos e acontecimentos bizarros e aterrorizantes ao longo da jornada. O foco não era nas explicações sobre os fenômenos sobrenaturais e nem no motivo de ser ou existir das criaturas daquele universo, mas na experiência sensorial que a película proporcionava enquanto uma produção de terror e suspense. Entravam em cena a apreensão provocada por cenas no escuro, e a urgência trazida pelo som que prenunciava o perigo. Quaisquer exposições ou revelações, ficariam para depois, no final.
Vinte anos depois (e após uma nova tentativa pouco inspirada de adaptação em 2012), a franquia volta aos cinemas com “Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno”. Aqui temos James, um jovem artista plástico que recebe uma carta misteriosa de Mary, um antigo amor, pedindo que retorne a Silent Hill para lidar com suas questões mal resolvidas. Ao chegar, James não encontra a cidade familiar e reconhecível de outrora, e começa a entrar em conflito com sua própria sanidade.
É difícil entender as intenções desse novo filme da franquia. Se a ideia era despertar novamente algum interesse do público por esse universo em seu formato cinematográfico, a oportunidade foi jogada no lixo. Pensando em paralelo ao filme de 2006, a relação entre James e Mary não tem a mesma capacidade de causar engajamento emocional e empatia da mesma forma que mãe e filha protagonistas do filme original fizeram. Era preciso muito mais do que um artista playboy abalado emocionalmente e atormentado psicologicamente em suas crises de exagero alcóolico. É estranho inclusive saber que Christophe Gans está de volta à cadeira de diretor, pois aqui ele parece ter se esquecido de todo o apuro técnico com o qual iniciou a franquia, e entrega um terror que faz questionar se realmente merece ser chamado assim. Se ele acerta na ambientação, trazendo algum grau de familiaridade desconfortável com a cidade fantasmagórica e decrépita que nos apresentou em outra oportunidade, ele erra na utilização do ambiente, nas suas características e personagens ao conduzir a história. Temos criaturas recicladas de filmes anteriores introduzidas muito mais como easter egg do que por utilidade ou potencial narrativo para terror; da mesma forma temos novos personagens introduzidos menos por função dramática e mais para emular alguma situação ou contexto dos games. Até mesmo a icônica progressão na mudança do ambiente após soar o alarme da cidade indicando o perigo iminente parece ter sido feita de forma preguiçosa: tudo muito rápido, com um design em CGI pouco inspirado lembrando em muita coisa “Stranger Things”, porém com menos orçamento. Nem mesmo a técnica de câmera na mão de forma a tentar conseguir um certo realismo e maior suspense se justifica como ponto positivo, já que entra em conflito com os enquadramentos extremamente fechados e a fotografia excessivamente escura na maior parte do tempo.
Talvez o erro mais crucial de “Regresso para o Inferno” seja mesmo as intermináveis intercessões de cenas e sequências envolvendo a vida pregressa do protagonista, de forma a dar o contexto dos seus traumas e ressentimentos, transformando o filme – principalmente em seu ato final – em uma psycho trip que vai ficando cada vez mais monótona e desinteressante conforme se encaminha para o encerramento. É como se a intenção inicial fosse fazer um terror, mas o diretor decidiu descambar para o lado do drama psicológico sobrenatural de última hora.
No fim das contas, sobra ao expectador lembrar com saudade do filme original, e reassisti-lo como uma espécie de detox cinematográfico. Aos fãs dos games, é por sua própria conta e risco, mas estejam avisados: não há muita coisa pra vocês ali também.

