O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A crítica de Uma Batalha Após a Outra possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação.
É comum Hollywood lançar filmes “parecidos” no mesmo ano. Às vezes, é pura coincidência — um efeito do momento e do mundo. Outras vezes, é oportunismo dos executivos, que transformam a arte em produtos feitos sob medida para agradar determinados públicos. Vi uma imagem nas redes sociais que ilustra perfeitamente o contexto dessa ideia de filmes semelhantes. Enquanto Eddington, de Ari Aster, fala sobre a tendência de tudo ficar cada vez pior, Uma Batalha Após a Outra oferece otimismo ao seu público.
Eddington é extremamente angustiante e parece ter como único objetivo deixar o espectador agoniado diante de um protagonista tão obtuso. É pessimista e exagerado. Fala dos impactos da violência, dos preconceitos e da desinformação. O problema é que Aster não tem controle da sua narrativa e se perde nos excessos. Por outro lado, o novo trabalho de Paul Thomas Anderson transforma os exageros em gags cômicas — e combina esse humor com uma mensagem de esperança. O resultado é um longo presente. Um filme que podemos colocar entre os melhores de 2025, dispensando a heresia (ou o hype) de deixar Pecadores, de Ryan Coogler, no topo da lista.
Contrariando as decisões de Quentin Tarantino, Christopher Nolan e Martin Scorsese — que já declararam publicamente a preferência por contar histórias que acontecem em um passado onde a sociedade ainda não era tão escravizada pelas telas (apenas pelo capitalismo) — PTA faz seu primeiro filme contemporâneo desde Embriagado de Amor, de 2002. No período, dirigiu Sangue Negro (2007), O Mestre (2012), Vício Inerente (2014), Trama Fantasma (2017) e Licorice Pizza (2021), flertando com várias possibilidades e estilos. Dentro da sua filmografia, é como se Uma Batalha Após a Outra fosse uma mistura da energia jovem de Licorice Pizza, a letargia pirada de Vício Inerente e a condução perfeita de Sangue Negro.
Estrelado pelo sempre surpreendente Leonardo DiCaprio, Uma Batalha Após a Outra é sobre um pai tentando recuperar a filha. Também é sobre uma filha tentando encontrar a própria identidade. E (por que não?) sobre um soldado que não sabe lidar com as consequências dos seus desejos reprimidos e decisões criminosas. A estranha conexão entre os três personagens principais flerta com a esperança de ver ações extremas como uma necessidade para corrigir o que há de errado no mundo — aqui vale citar Eddington novamente, com um paralelo totalmente oposto.
Bob (DiCaprio) é uma homenagem explícita a O Grande Lebowski, dos Irmãos Coen. O protagonista usa um roupão xadrez que lembra demais o Dude, personagem de Jeff Bridges. O talento de DiCaprio para o humor físico já havia sido trabalhado por Scorsese em O Lobo de Wall Street. Se fosse um ator menos talentoso, ele provavelmente escorregaria na sombra do próprio trabalho. Jordan Belfort era engraçado por ser um psicopata sofrendo os efeitos das drogas. Bob, por sua vez, é um maconheiro com o cérebro derretido pelos anos de abusos — e um sentimento constante de estar completamente perdido na vida. Até podem parecer semelhantes, mas os trejeitos são totalmente diferentes.
As interações de Bob com o sensei ninja vivido por Benicio Del Toro são hilárias. Desde a dinâmica entre os personagens até a fuga desesperada pelos telhados, talvez seja um dos grandes momentos do longa. E aqui chama a atenção o senso cômico — tão presente em outras obras do diretor — ganhar o destaque e funcionar como motor da evolução narrativa.
Uma das personagens centrais do início é Perfidia, vivida por Teyana Taylor. A cena em que ela humilha Lockjaw (Sean Penn) é absurda: após ser rendido, ele é forçado a ficar de pau duro numa disputa de força mental com a revolucionária. A partir daí, Lockjaw inicia uma perseguição contra ela e seu grupo, movido por uma curiosidade que entra em conflito direto com suas tendências supremacistas. Penn — forte candidato ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2026 — expressa o conflito interno de um homem racista e criminoso, mas dividido. E, consequentemente, frustrado.
Vale destacar também Regina Hall (a eterna Brenda de Todo Mundo em Pânico) e, claro, a jovem Chase Infinit como Willa, a filha sequestrada — que, em momento algum, deixa de ser uma personagem com várias camadas. Aliás, é um mérito do roteiro ter decidido em vez de tentar forçar seu retorno, simplesmente abandonar Perfidia após o primeiro ato. Sua presença continua pairando sobre as ações de Bob, Lockjaw e Willa, sem a necessidade de aparecer novamente.
Além de um roteiro afiado, desenvolvimento de personagens, senso de humor aflorado e atuações memoráveis, Uma Batalha Após a Outra ainda conta com a trilha sonora de Jonny Greenwood — sua quinta colaboração com Anderson. Uma das faixas, “Like Tom Fkn Cruise”, brinca com o astro de Missão: Impossível. Aliás, o momento em que DiCaprio pula de um carro em movimento é exatamente aquilo que Tom Cruise não faria, rendendo ao público uma meta-piada deliciosa.
Por fim — e não menos importante — o terceiro ato é uma das melhores sequências cinematográficas dos últimos anos. Ao som de “River of Hills”, uma faixa de cordas tensa (que lembra bastante Bernard Herrmann em Psicose), acompanhamos uma perseguição de carros eterna. É para mostrar como se faz um bom Velozes e Furiosos — e lembra especialmente aquela famigerada sequência da pista de avião que nunca acaba.
Mas essa aqui não é uma perseguição qualquer. A câmera mostra o ponto de vista do motorista, subindo e descendo morros. Nunca há uma visão clara do que está à frente. O resultado é sufocante. Os carros e a estrada ganham vida própria, como se fossem entidades em cena. É como se Spielberg tivesse dirigido Encurralado em 2025, com ecos de Bullitt e Corrida do Destino. Você mal pisca durante a sequência.
Uma Batalha Após a Outra é cinema. Absolute cinema, como diria o Scorsese. Recomendo fortemente para quem se permite viver boas histórias — e quer ter a certeza de que ainda há vida na sétima arte além da dependência de blockbusters e grandes parques de diversão.

