
Ao assistir Você Só Precisa Matar, certamente você notará semelhanças óbvias com outras produções do audiovisual. Se No Limite do Amanhã for a primeira delas a surgir na mente, é mais do que justificado: o livro original do autor Hiroshi Sakurazaka, que Você Só Precisa Matar adapta para os cinemas, também serviu de inspiração para o filme de 2014 estrelado por Tom Cruise e Emily Blunt.
A premissa é simples; uma gigantesca árvore alienígena batizada como Darol surge no Japão e começa a expandir seus troncos e raízes por todos os lados. A humanidade então se organiza e com o tempo cria uma rotina de exploração e pesquisa envolvendo o estranho ser. Nesse contexto conhecemos Rita, uma menina solitária e introspectiva, membro da força-tarefa responsável pelas atividades envolvendo a árvore extraterrestre. Mas o que até então parecia uma situação aparentemente controlada, ganha contornos de urgência e luta pela sobrevivência quando criaturas violentas começam a surgir e destruir tudo e qualquer um em seu caminho, e Rita se vê presa em um loop temporal, vivendo repetidas vezes o mesmo dia a cada vez que é morta pelos aliens.
O que chama atenção logo de início em Você Só Precisa Matar é o seu estilo visual. A tradicional animação 2D – com aquele familiar aspecto artesanal que incide sobre o desenho manual, detalhando cores e iluminação de forma muito característica nesse estilo – encontra o 3D e sua habitual tridimensionalidade, permitindo uma estética que brinca com a percepção do público. Em diversos momentos cria-se uma alternância entre os dois estilos, em outros, a animação se transforma em um híbrido muito interessante, desafiando os olhos a tentar entender e perceber a natureza estilística da produção. Aliás, os traços de Você Só Precisa Matar parecem ter sido concebidos com uma estranheza proposital, de modo a não deixar o público acomodado. Raramente você encontrará aqui curvas confortáveis, designs fofinhos e expressões meigas. Ao invés disso, temos traços quebrados e angulosos, personagens de aparência estranha e um esquema de cores por vezes beirando o psicodélico.
Pensando em um contexto de representação visual, talvez esta seja mesmo a melhor forma de abordar o universo retratado na animação e, principalmente, seus personagens. É um mundo diverso, plural e futurista, mas ainda assim um mundo emocionalmente quebrado, portanto habitado por pessoas quebradas. Em dado momento do filme é possível ouvir um fragmento de conversa entre duas personagens sem grande importância na narrativa, onde uma delas comenta sobre lidar com o abandono do seio familiar cometido pelo pai. A própria Rita é deslocada, melancólica, traumatizada pela rejeição da mãe, que culminou em um incidente grave na infância que quase terminou em um desfecho trágico para ambas. Ela vive seus dias a esmo, sentindo o tédio da rotina e o peso de uma vida sem propósito real. Chega a ser irônico que a chegada da estranha árvore cósmica – e posteriormente, o ataque alienígena – representem um abalo nas estruturas do lugar comum em que Rita se encontra, enquanto a sua vivência do mesmo dia repetidas vezes como consequência do ataque funcione como uma metáfora existencial para a sua monótona e cativa vida antes da invasão extraterrestre.
Pois bem, a psicologia ensina que insistir repetidamente em um mesmo comportamento esperando resultados diferentes é um erro, e parece ser o tipo de percepção que recai sobre Rita após as várias tentativas de sair sem sucesso do seu loop temporal. Ao perceber que está sendo observada, algo até então inédito nas repetições de seus dias, Rita conhece Keiji, um rapaz que se encontra preso na mesma situação. A partir daí o filme ganha uma dinâmica interessante tanto pela interação entre dois personagens muito diferentes entre si na forma de lidar com a vida, quanto no quesito ação. A inteligência e habilidade de Keiji para invenções tecnológicas rendem cenas de ação estilizadas, coloridas, rápidas, por vezes até difíceis de acompanhar. Ao mesmo tempo que sua gentileza, ingenuidade, leveza e até mesmo sua forma de espelhar os próprios traumas fazem um bom contraponto emocional com Rita.
Você Só Precisa Matar, em última análise, parece ser uma animação muito influenciada pelo live action, principalmente o drama; isso é perceptível na movimentação fluida de câmera com planos silêncios e contemplativos, nas pausas dos personagens para respiro e assimilação, além do claro posicionamento do filme como jornada emocional; muito evidenciado inclusive pela trilha sonora épica e emotiva regada a cordas que por vezes cresce e ajuda a compor momentos de muita beleza. Mas acima de tudo, o filme provoca a sensação de ser uma fábula sci-fi estranhamente cativante e artística, sobre ser resiliente à monotonia e desesperança dos dias difíceis, mostrando ser possível encontrar apoio e identificação nas pessoas mais improváveis, ao se dispor a observar a vida com um bocado de boa vontade e espírito coletivo.

