Por que isso importa (e por que seu professor de literatura vai chiar)
Se você leu “Frankenstein; ou, o Moderno Prometeu” e acha que o cinema sempre “deturpa a obra”, respira: Guillermo del Toro não “deturpa”; ele adota o monstro, dá um banho, passa um pente fino na culpa de Victor e entrega um épico gótico com verniz de melodrama familiar. O resultado? Mais emoção, menos sermão científico — e um tapa na cara em quem acha que adaptação boa é xerox.
1) Do horror filosófico ao drama de paternidade: a bússola emocional muda
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No livro: Mary Shelley martela ambição científica, ética e isolamento. Victor brinca de Deus e paga o preço com juros compostos de tragédias.
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No filme: del Toro liga o modo “drama pai-e-filho”. A criatura não é só um espelho da arrogância de Victor — é o filho não planejado que exige responsabilidade afetiva. O horror continua, mas o foco está no abandono, culpa e (talvez) redenção.
Tradução para humanos: menos laboratório filosófico, mais terapia em família com tempestade elétrica.
2) Motivação e moralidade: a Criatura ganha nuance (e mira melhor)
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No livro: a Criatura vira um anjo caído eloquente que responde à rejeição com vingança generalizada (William, Justine, Clerval, Elizabeth… ninguém escapa).
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No filme: del Toro suaviza o massacre e redireciona a raiva: o alvo principal é Victor. Mortes colaterais existem, mas a câmera gruda na dor de não pertencer — não na contabilidade de corpos.
Efeito prático: o “monstro” parece mais humano do que muito humano com crachá de cientista.
3) Corta, cola e inventa: quem entra e quem some do baile
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Personagem novo: Heinrich Harlander (Christoph Waltz), milionário doente e mentor torto de Victor. Ele turbina a obsessão do doutor e puxa o filme para o terreno do capitalismo necromante. No livro, ele não existe.
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Personagem ausente/encolhido: Justine, peça-chave da tragédia literária, perde espaço para outras escolhas que aproximam o conflito de Victor x Criatura x família.
Resumo: del Toro troca engenharia de culpa coletiva por foco dramático — e ganha ritmo (mesmo irritando puristas).
4) A estrutura do relato: quem narra essa desgraça?
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No livro: narrativa em moldura — Walton ouve Victor, que relata a história e, dentro dela, a Criatura narra a sua própria via-crúcis. É telefone sem fio vitoriano.
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No filme: a Criatura assume o volante por longos trechos. É um acerto de justiça poética: a voz de quem foi feito do zero conta sua própria origem.
Moral: quando o “filho” fala, a fábula deixa de ser tese de laboratório e vira confissão à luz de vela.
5) O final: Shelley fecha em tragédia; del Toro tenta o raio de sol
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No livro: Victor morre consumido pelo ódio; a Criatura promete autoimolação e some no gelo. Pessimismo clássico, assinatura Shelley.
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No filme: criador e criação têm reconciliação tardia. O pedido de perdão chega, a Criatura aceita e escolhe viver. Ainda há morte e perda, mas o quadro fecha com um horizonte menos escuro.
Tradução: Shelley escreve o epitáfio; del Toro escreve a segunda chance.
Perguntas que você vai pesquisar (e eu respondo antes)
Frankenstein (2025) é fiel ao livro?
Na espinha dorsal, sim; nos órgãos vitais, del Toro transplanta: dá voz à Criatura, desloca motivações e troca fatalismo por esperança amarga.
A Criatura é vilã no filme?
É ferida, não vilã. O monstro aqui é o abandono. E Victor, claro, quando assina embaixo.
Tem personagem inventado?
Tem: Heinrich Harlander. Pense nele como o anjo investidor do inferno.
E o romance com Elizabeth?
Sai a noiva santificada, entra uma mulher com agência — menos pedestal, mais suspeita lúcida.
Preciso ler o livro antes?
Não, mas merece. Shelley continua farpuda em 1818/1831 — e faz o filme brilhar mais.
Onde assistir e quando (sem briga com o relógio)
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Streaming: chega à Netflix em 7 de novembro. Dica: aproveite a sessão e não pesquise “como criar vida com trovões” em casa. O algoritmo não perdoa.
Veredito
Se Mary Shelley for a mãe da ficção científica, Guillermo del Toro é o tio carismático que deixa a criança comer açúcar e ainda assim a coloca para dormir com uma história melhor. Não é a versão “definitiva” — porque não existe —, mas é um Frankenstein que pulsa, sangra e, contra todas as probabilidades, **aprende a viver.

