Hoje, Paul Thomas Anderson vive o momento mais celebrado de sua carreira. One Battle After Another virou o grande filme de 2025, varreu prêmios no Globo de Ouro, dominou o discurso crítico e aparece como favorito absoluto ao Oscar. Mas, por trás dessa consagração tardia, existe uma história quase mítica que poucos conhecem: o dia em que PTA escreveu um filme de ação brutal, violento e tarantinesco — e nunca o filmou.
E mais: quem leu diz que era o melhor roteiro que ele já escreveu.
Antes do autor cult, havia um jovem obcecado por violência
Em 1993, Anderson tinha apenas 23 anos, nenhum longa-metragem lançado e uma cabeça fervilhando de referências. O cinema independente americano acabava de ser sacudido por Reservoir Dogs, de Quentin Tarantino, e a ideia de fazer filmes baratos, explosivos e autorais parecia não só possível — mas urgente.
Foi nesse contexto que Anderson escreveu Knuckle Sandwich, um roteiro de ação centrado em um criminoso chamado Barry, que fazia serviços para um gângster violento. Nada de melancolia romântica, nada de introspecção: o texto era cru, agressivo e explicitamente físico, com diálogos que flertavam com o sadismo.
Algumas dessas falas sobreviveriam por quase uma década — recicladas, suavizadas e transplantadas para outro filme completamente diferente.
O roteiro que virou outra coisa (e talvez algo melhor)
Quase dez anos depois, o mundo conheceria Punch-Drunk Love. Um romance torto, delicado, nervoso, estrelado por Adam Sandler como um vendedor emocionalmente instável tentando aprender a amar.
O que pouca gente sabe é que Punch-Drunk Love nasceu diretamente das cinzas de Knuckle Sandwich.
Personagens com os mesmos nomes, estruturas de cena semelhantes e até linhas de diálogo idênticas aparecem nas duas versões. A diferença está no tom: onde antes havia ameaça, agora existe ansiedade; onde antes havia violência explícita, surge repressão emocional.
Um trecho famoso ilustra bem isso. No roteiro original, Barry descrevia com frieza a fantasia de esmagar o rosto da amante com uma marreta. No filme final, essa pulsão vira algo implícito, desconfortável, internalizado — o mesmo impulso, canalizado de forma autoral.
“O melhor roteiro que já li”
A revelação sobre esse projeto abortado veio por meio de Karyn Rachtman, uma das mais influentes supervisoras musicais de Hollywood, responsável por escolhas icônicas como Stuck in the Middle with You em Reservoir Dogs. Colaboradora inicial de Anderson, ela descreveu Knuckle Sandwich sem rodeios:
“Era o melhor roteiro que eu já tinha lido.”
Não “promissor”. Não “interessante”. O melhor.
Para quem conhece o rigor obsessivo de PTA, isso torna a história ainda mais intrigante. Por que abandonar algo assim?
O medo de repetir o óbvio
Quando Punch-Drunk Love chegou aos cinemas em 2002, Anderson já não era mais um jovem tentando chocar Hollywood. Ele havia dirigido Hard Eight, Boogie Nights e Magnolia. Sua identidade autoral estava consolidada — e, talvez por isso, aquele filme de ação puro já não fazia sentido.
Há também um fator histórico. O cinema dos anos 90 estava saturado de imitadores de Tarantino. O estilo que parecia revolucionário em 1992 soava derivativo uma década depois. Anderson percebeu isso cedo e fez o que poucos fazem: matou uma ideia brilhante para salvar a própria evolução artística.
O filme que nunca existiu — e por que isso importa agora
Com One Battle After Another, Anderson finalmente entrou no território da ação — mas do seu jeito. Nada de tiroteios estilizados ou violência celebratória. O filme é tenso, físico, sufocante, interessado menos no espetáculo e mais nas consequências morais.
É impossível não imaginar: quanto daquele jovem de 23 anos ainda estava ali, esperando o momento certo?
Talvez Knuckle Sandwich nunca tenha sido feito porque não era para existir naquele tempo. Talvez ele precisasse envelhecer, amadurecer e aprender a desconfiar da própria agressividade para, só então, transformá-la em algo maior.
No fim, a história do filme de ação perdido de Paul Thomas Anderson prova uma regra cruel — e libertadora — da criação artística:
Nenhuma grande ideia é desperdiçada. Ela só está esperando a versão certa de quem a criou.
E, ao que tudo indica, Anderson finalmente chegou lá. [Via FaroutMagazine]

