Se você achava que a política de escritório, os e-mails passivos-agressivos e as reuniões de alinhamento às 18h de uma sexta-feira eram o ápice da toxicidade, espere até ver o que Sam Raimi preparou em seu mais novo longa, ‘Socorro’ (Send Help). Esqueça o glamour das viagens de negócios na classe executiva e os coquetéis de networking; aqui, o lendário diretor de The Evil Dead e Arraste-me para o Inferno pega a estrutura clássica de O Senhor das Moscas e a joga dentro de uma trituradora industrial regada a humor ácido, body horror e uma luta de classes visceral.
No Cinema de Buteco, analisamos por que este thriller de sobrevivência, que estreou neste final de janeiro de 2026, já é considerado a primeira grande gema do ano e um retorno triunfal de Raimi ao gênero que o consagrou.
A Trama: O “Boy Lixo” encontra a Sobrevivencialista
A premissa de Socorro é um pesadelo deliciosamente irônico, construída sobre as fundações do ressentimento corporativo. Rachel McAdams vive Linda Liddle, uma executiva brilhante do departamento de Planejamento e Estratégia. Linda é a força motriz invisível da empresa: ela é quem resolve os problemas reais, quem traça as metas e quem limpa a bagunça dos outros. No entanto, ela é tratada como um “zero à esquerda” pelos figurões da companhia por não se encaixar no padrão estético e social do “clube do bolinha” executivo. Ela é considerada “desleixada” e uma vergonha para os diretores bem-vestidos.
Seu sofrimento atinge o ápice quando seu chefe imediato, Donovan (Xavier Samuel), rouba sistematicamente seus créditos, e a promoção que ela tanto almejava é entregue de bandeja ao “nepo-baby” e novo CEO da empresa: Bradley Preston (Dylan O’Brien). Bradley é a personificação do privilégio; ele herdou o cargo do pai e prefere passar o tempo jogando golfe do que entendendo o funcionamento da própria companhia.
Tudo muda quando Linda é enviada em uma missão para Bangkok para “provar seu valor” em uma fusão comercial. Durante uma tempestade brutal, o jato da empresa cai em uma ilha deserta, deixando Linda e um Bradley gravemente ferido como os únicos sobreviventes. É aqui que o roteiro de Damian Shannon e Mark Swift brilha: Linda passou anos treinando obsessivamente para ser uma candidata do reality show Survivor. Ela sabe filtrar água, caçar e construir abrigos. Bradley, por outro lado, mal sabe acender um fósforo. A dinâmica de poder inverte de forma brutal e sádica, transformando a luta pela vida em uma guerra psicológica por supremacia.
O Estilo Raimi: Entre o Nojo, a Risada e a Loucura
Sam Raimi está em sua melhor forma. Este é o seu primeiro filme de terror puro como diretor desde o aclamado Arraste-me para o Inferno (2009). Embora a cinematografia seja mais contida e menos “cartunesca” do que em seus tempos de Homem-Aranha, o “terror social” é palpável e angustiante. Raimi utiliza o isolamento da ilha para dissecar o comportamento humano sob pressão, mas nunca esquece suas raízes no splatter.
O filme transita com maestria por momentos de comédia gross-out — como uma cena infame de vômito durante uma tentativa atrapalhada de ressuscitação boca-a-boca — e sequências de tensão absoluta que fazem o espectador roer as unhas. Há uma cena de sutura improvisada que remete diretamente ao desconforto físico de Louca Obsessão (1990), uma das grandes influências declaradas do projeto.
McAdams entrega uma performance corajosa, despindo-se completamente da imagem de “queridinha da América” para viver uma mulher cujas frustrações acumuladas por anos de machismo e desvalorização começam a florescer de forma psicótica. O filme faz você questionar constantemente a moralidade: por quem estamos torcendo? Linda é a heroína fazendo justiça com as próprias mãos ou ela está se transformando no verdadeiro monstro da ilha?
Curiosidades e Bastidores: O Longo Caminho até a Ilha
A jornada de Socorro para as telas foi longa. O projeto foi anunciado pela primeira vez pela Columbia Pictures em outubro de 2019, descrito inicialmente apenas como um “thriller de terror sem título” produzido e dirigido por Sam Raimi. O anúncio marcou a retomada da parceria de Raimi com os grandes estúdios após anos focado na produção de sucessos como Predadores Assassinos (2019) e a série Ash vs. Evil Dead.
Aqui estão alguns fatos fascinantes sobre a produção:
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Reencontro Marvel: Sam Raimi e Rachel McAdams trabalharam juntos anteriormente em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022). Foi durante as filmagens do longa da Marvel que Raimi convenceu McAdams de que ela seria a Linda Liddle perfeita, citando sua habilidade de ser vulnerável e assustadora simultaneamente.
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Locações Reais: Embora a trama se passe em uma ilha deserta, as filmagens ocorreram em locais diversos, incluindo Sydney (Austrália), Los Angeles e as praias paradisíacas (e úmidas) da Tailândia. A equipe enfrentou tempestades reais durante as gravações, o que ajudou no clima de desespero do elenco.
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O Amuleto Bruce Campbell: Como é tradição em todos os filmes de Raimi, seu melhor amigo Bruce Campbell faz uma participação. Desta vez, ele não aparece fisicamente, mas sua imagem está espalhada pelo escritório de Bradley em forma de retratos e pinturas a óleo como o falecido pai e fundador da empresa.
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Influências Misturadas: O marketing do filme descreveu a obra como uma mistura de Louca Obsessão com Náufrago. No entanto, críticos notaram que a pegada de Raimi adiciona um elemento de “horror de vingança” que remete a clássicos como 9 To 5 (Como Eliminar seu Chefe), mas com muito mais sangue.
Elenco e Recepção: Um Sucesso de Crítica
Dylan O’Brien consegue a proeza de não transformar Bradley em um vilão unidimensional. Ele é irritante e privilegiado, mas há uma humanidade trágica em sua negligência que torna as reviravoltas do roteiro ainda mais angustiantes. O espectador sente o asco que Linda sente por ele, mas também a tensão de vê-lo nas mãos de alguém que está claramente perdendo a sanidade.
O filme estreou com impressionantes 92% de aprovação no Rotten Tomatoes. O consenso da crítica destaca que Raimi não precisou de ajuda para entregar um dos filmes mais divertidos e diabólicos da década, graças a um roteiro que é “viciosamente inteligente e que não poupa ninguém”. Com uma arrecadação projetada de 17 milhões de dólares no primeiro fim de semana, Socorro prova que o público ainda tem sede por horrores originais e bem executados.
5 Filmes Parecidos para quem curtiu ‘Socorro’
Se você gostou da mistura de sobrevivência, sátira social e o toque sádico de Sam Raimi, o Cinema de Buteco recomenda estas 5 obras fundamentais:
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Mickey 17 (2025): Dirigido por Bong Joon-ho, este filme lida com a descartabilidade absoluta do funcionário em um sistema colonial extremo. Se você se sentiu mal pela Linda sendo tratada como lixo, espere até ver o que acontece com os clones de Robert Pattinson.
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O Menu (2022): Uma sátira feroz sobre classes sociais onde o isolamento em uma ilha e o terror psicológico são servidos como prato principal. É o filme perfeito para quem gosta de ver os ricos sendo colocados em situações de vida ou morte por aqueles que eles desprezam.
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Casamento Sangrento (Ready or Not, 2019): Mistura perfeitamente o terror visceral com o humor ácido. A luta de uma noiva contra sua família política rica e excêntrica tem o mesmo DNA de “sobrevivência contra o privilégio” que vemos em Socorro.
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Triângulo da Tristeza (2022): Para quem quer ver a inversão de hierarquia levada ao limite do absurdo. Quando um iate de luxo naufraga, a única pessoa que sabe sobreviver é a faxineira, tornando-se a “capitã” do grupo. É o par perfeito para o longa de Raimi.
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Arraste-me para o Inferno (2009): Essencial para entender o estilo de “terror moral” de Raimi. Aqui, a ambição corporativa de uma bancária desencadeia uma maldição cigana. É o lembrete de que, no universo de Raimi, toda decisão de escritório tem um custo sobrenatural (ou mortal).
O Veredito do Buteco
Socorro é um lembrete necessário de que o terror não precisa de fantasmas ou demônios para ser eficaz. Às vezes, o maior horror está sentado na mesa ao lado, roubando sua ideia ou ignorando seu valor. Sam Raimi entregou uma obra que é ao mesmo tempo um soco no estômago e uma gargalhada histérica. É um filme feito para qualquer um que já quis que o avião da firma caísse — mas apenas com as pessoas certas a bordo.

