New York Film Critics Circle 2025 wagner moura

Wagner Moura em O Agente Secreto: “Como é que ninguém lembra que isso aconteceu?”

Em O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, Wagner Moura interpreta um ex-pesquisador universitário que vira alvo político durante o auge da ditadura militar brasileira no fim dos anos 1970. Ele é obrigado a assumir uma nova identidade e esperar a chance de ser tirado do país às escondidas. O personagem é ficcional – o contexto, infelizmente, não.

O que mais espanta o ator hoje não é o horror daquele período. É o fato de tanta gente nova sequer saber que tudo isso existiu.

Em uma entrevista para o The Playlist, ele conta que, depois de Marighella e agora com O Agente Secreto, vive ouvindo adolescentes saindo da sessão perguntando: “Mas isso aconteceu mesmo?”. Para Moura, isso é simplesmente “insano”.


Um thriller político que parece arquivo vivo

O Agente Secreto se passa no fim da década de 1970, quando o regime começava a dar sinais de desgaste, mas a máquina repressiva seguia a pleno vapor. Moura faz um intelectual que, pressionado pelo Estado, entra na clandestinidade e vira peça de um jogo maior, enquanto espera ser contrabandeado para fora do país.

Mesmo sendo um personagem inventado, o ator não precisou de muita pesquisa para sentir o peso daquele mundo. Ele nasceu em 1976; o filme se passa em 1977. As lembranças de infância estão ali:

  • o pai com camisa aberta,

  • maço de cigarro no bolso,

  • clima de medo que ninguém nomeia, mas todo mundo respira.

Ele diz que filmar foi como abrir um álbum de fotos da própria família – só que com um Estado autoritário rondando cada frame.


“Não estamos aqui para educar ninguém” (mas o filme educa assim mesmo)

Moura é direto: nem ele nem Kleber fizeram o filme como “aula de história”. A intenção nunca foi ser didático. Só que, como ele mesmo admite, o efeito colateral é inevitável.

O filme funciona em três camadas:

  1. Drama de suspense – um homem perseguido, tentando sobreviver.

  2. Crônica política – o Brasil sob repressão, vigilância e medo.

  3. Choque de realidade para quem não viveu a época – principalmente os mais jovens, que saem do cinema incrédulos.

Arte, pra ele, serve justamente pra isso:

  • preservar memória,

  • questionar a maneira “oficial” como a história é contada,

  • e trazer para o centro personagens e pontos de vista que os livros didáticos empurram para a margem (como aconteceu com indígenas e pessoas negras na narrativa sobre a colonização).

O Agente Secreto entra nesse lugar de disputa de memória, sem virar cartilha.


Bolsonaro, desmonte cultural e a gênese do filme

O projeto também nasce de um período mais recente, que Moura e Kleber viveram na pele: os anos do governo Bolsonaro.

Entre 2018 e 2022, segundo o ator:

  • o governo atacou jornalistas, universidades, artistas,

  • praticamente zerou o fomento ao cinema e às artes,

  • e desmontou uma tradição histórica brasileira de apoio estatal à cultura.

Foi nesse contexto que o filme começou a ser gestado. Moura estava há 12 anos sem atuar em longas em português – nesse meio tempo, fez Narcos, dirigiu Marighella, trabalhou fora – enquanto o cinema brasileiro sangrava.

Com a mudança política e a retomada democrática, ele diz que o país voltou a “respirar” cinema. Mas a cicatriz fica – e O Agente Secreto conversa direto com a experiência recente de ataque às instituições, inclusive traçando paralelos com o que aconteceu nos EUA em 6 de janeiro de 2021.

Para ele, há uma diferença importante:

  • o Brasil sabe o que é uma ditadura,

  • identificou os sinais e reagiu mais rápido,

  • enquanto muitos americanos ainda tratam a democracia como algo dado, “garantido”, nunca realmente ameaçado.


O roteiro que ignora o manual de roteiro

Uma das coisas que mais empolgaram Moura em O Agente Secreto foi a forma como Kleber Mendonça Filho constrói a história: sem obedecer ao “manual” dos três atos bonitinhos, virada na página 30, clímax na 90, etc.

Durante boa parte do filme, o público sente:

  • que algo está errado,

  • que há uma operação em curso,

  • que aqueles personagens orbitam um segredo enorme…

Mas a explicação formal só vem bem mais tarde, numa cena dentro de um cinema – quase como se o próprio ato de ver filmes fosse parte da trama de resistência e conspiração.

Até ali, você está montando o quebra-cabeça no escuro. Moura adorou isso: não é um thriller mastigado, daqueles em que você prevê o final na metade.


Memória pessoal, arquivo político

Como já tinha mergulhado na história da resistência armada em Marighella, Moura chegou em O Agente Secreto com um repertório sólido sobre:

  • movimentos de oposição à ditadura,

  • contexto econômico e social da época,

  • clima político dentro e fora das universidades.

Mas, no fim, o que molda o personagem não é só a pesquisa: é essa mistura de memória afetiva com trauma coletivo. Ele reconhece nos cenários do filme o país em que cresceu. Não como nostalgia, e sim como alerta: o que foi vivido pode ser esquecido – e, se for esquecido, pode ser repetido.

Daí a frustração com a reação dos jovens:

como alguém pode assistir a um filme sobre tortura, censura e perseguição e perguntar “isso aconteceu mesmo?” sem nunca ter ouvido falar disso na escola?


A lenda da “perna cabeluda” e a malícia recifense

Porque é um filme de Kleber, obviamente tem Recife, tem rádio, tem cultura local e tem… perna cabeluda.

Moura conta que já conhecia a lenda urbana recifense da “perna cabeluda” – um membro fantasmagórico que sairia à noite chutando pessoas na rua –, principalmente por causa de uma música de Chico Science & Nação Zumbi que cita um bandido “sem medo da perna cabeluda”.

Mas foi só ao ler o roteiro de O Agente Secreto que ele entendeu o peso simbólico da história na trama: mais do que folclore aleatório, é parte de um imaginário de medo, vigilância e violência que atravessa a cidade e o país.


Cannes, melhor ator… e o prêmio na garagem

O Agente Secreto estreou em Cannes, foi aclamado e rendeu a Wagner Moura o prêmio de Melhor Ator. Perguntado onde ele guarda o troféu, a resposta é tão pé no chão quanto o filme é politizado:

O prêmio está na garagem-escritório, o lugar onde ele trabalha, treina jiu-jitsu e vive a rotina fora do tapete vermelho.

É um gesto simbólico interessante:

  • nada de estante triunfal na sala,

  • nada de altar com luz direcionada,

  • o reconhecimento máximo de um festival de prestígio guardado no espaço mais cotidiano possível.

Como se dissesse: prêmio é importante, mas o que interessa mesmo é o trabalho – e, no caso de O Agente Secreto, o que esse trabalho faz com a memória de um país que não pode se dar ao luxo de esquecer o próprio passado autoritário.