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Review All Her Fault: prazer e pânico

Se existe um subgênero que nasceu para destruir o teu sono com eficiência industrial, é o “meu filho sumiu e o mundo inteiro vai me julgar enquanto eu tento respirar”. All Her Fault entende isso — e, pior: entende que você vai clicar em “próximo episódio” como quem aperta “atualizar” em exame médico.

A premissa já começa no modo ataque cardíaco: Marissa (Sarah Snook) chega para buscar o filho de 5 anos, Milo, num playdate… e a mulher que abre a porta nunca ouviu falar dela, do garoto, da suposta mãe anfitriã, nem da babá que estaria cuidando de tudo. Em minutos, a série te coloca naquelas decisões que ninguém quer tomar, mas todo mundo acha que tomaria “melhor”: ligar pra polícia, desconfiar de todo mundo, acusar o mundo, acusar a si mesma — e, claro, ser acusada. (Porque maternidade, no tribunal popular, vem com culpa vitalícia.)

E aqui vai o elogio que interessa: All Her Fault é uma delícia de ver justamente porque é cruel no ritmo. São oito episódios que funcionam como engrenagens: pista, contradição, detalhe plantado, paranoia crescendo, e aquele tipo de virada que não precisa apelar pro “sobrenatural do nada” — ela só precisa mostrar o quão “civilizada” é a classe média alta até o momento em que alguém encosta o dedo na rachadura. A própria Peacock vende como um thriller de segredos e fissuras numa vida “perfeita”, e a série realmente cumpre a promessa sem ficar filosofando com a câmera parada por 12 minutos.

Sarah Snook no modo “não piscou, morreu”

Sarah Snook faz aqui o que atores muito bons fazem quando a história dá espaço: ela não “interpreta desespero”, ela vira desespero com gerenciamento de imagem. Marissa é rica, competente, articulada — e, em poucas cenas, a série mostra como isso não compra nada quando o terror é íntimo. A atuação tem aquela mistura de fúria contida + lógica derretendo que prende mais do que qualquer “twist” de roteiro. Não é performance para virar meme; é performance para você ficar desconfortável com o quanto acredita nela.

E o elenco ao redor joga a favor do vício: Dakota Fanning entra com uma energia que equilibra solidariedade e suspeita, Jake Lacy entrega aquele “americano impecável com algo rangendo por dentro”, e a investigação conduz a tensão sem virar caricatura (Michael Peña traz humanidade sem transformar tudo num sermão).

Direção: tight, tensa, sem gordura

O que mais me agrada é a disciplina. A série não vira refém do próprio conceito. Ela te dá personagens com “potencial de culpado” (porque todo mundo tem algo a esconder — principalmente quando tem patrimônio), mas não perde a mão no labirinto. É o tipo de suspense que sabe que a sensação é mais importante do que a explicação imediata.

E tem um detalhe de bastidor que ajuda a entender a sensação “globalizada” do negócio: apesar de se passar em Chicago, a produção foi filmada majoritariamente na Austrália (Melbourne e regiões de Victoria). E isso dá uma textura curiosa: familiar o bastante para parecer “poderia ser com você”, deslocada o suficiente para parecer pesadelo.

“Ah, mas tem gente que odiou”

Tem. E eu acho ótimo. A Time, por exemplo, desceu a lenha chamando de “nonsense” e reclamando de moralismo e execução.
Só que aqui vai minha posição impopular (e útil): um thriller doméstico não precisa ser “profundo”, ele precisa ser implacável. E quando All Her Fault está no seu melhor, ela é exatamente isso: um prazer de tensão, com roteiro de mecanismo, que te faz desconfiar até do teu micro-ondas.

Veredito

All Her Fault é o tipo de série que você “só ia ver o piloto” e, quando percebe, já está no episódio 6 pensando: “ok, eu moro num mundo onde playdate é esporte radical”. É thriller de alto consumo, bem amarrado, com Sarah Snook carregando o pânico nas costas como quem carrega um piano ladeira acima — e ainda acha fôlego pra te encarar.

Se você gosta de suspense doméstico, paranoia social, segredos em condomínio e a sensação deliciosa de “tá tudo muito errado”, pode entrar. Mas entra sabendo: ela não quer te confortar. Ela quer te viciar.