review rainha das lagrimas

Review Rainha das Lágrimas: o k-drama da Netflix que te pega pelo colarinho

Rainha das Lágrimas é aquele k-drama que entra em cena com o manual do gênero na mão e, por alguns episódios, parece fazer questão de sublinhar cada tópico: rica poderosa + “plebeu” sensível, casamento em ruínas, guerra de família, intriga corporativa, doença terminal, vilão com agenda própria e um caminhão de coincidências com cara de “destino”. A diferença é que, quando a série para de se apresentar e resolve jogar de verdade, ela entrega um melodrama bem construído, com personagens que grudam na memória e um elenco que sabe tirar emoção até de situações que, no papel, poderiam soar como exagero de novela.

O ponto de partida já é delicioso: em vez do “primeiro encontro fofo”, você pega o casal protagonista no pós-lua-de-mel emocional, já casado e prestes a assinar o divórcio. De um lado, Hong Hae-in (Kim Ji-won), CEO fria, afiada, criada num ecossistema onde carinho é fraqueza e vulnerabilidade é risco jurídico. Do outro, Baek Hyun-woo (Kim Soo-hyun), o marido que parece gentil demais para sobreviver ao universo de cobra-gravata da família dela, mas que também não é exatamente um santo inerte. O jogo aqui é ver como duas pessoas que já se amaram (e ainda se amam, mesmo negando com convicção) conseguem reaprender a funcionar sem o verniz social, sem o “papel do casal perfeito” e sem as famílias puxando as cordas.

O que faz Rainha das Lágrimas funcionar, quando funciona, é que ela entende uma verdade básica do melodrama: você pode até comprar a reviravolta mais absurda do mundo, desde que você compre as pessoas. E os personagens são o grande trunfo. Existe um cuidado em dar função e arco para coadjuvantes que, em outras séries, seriam só “gente gritando em salas enormes”. Aqui, a sensação é de que cada peça tem utilidade real: alguém manipula, alguém encobre, alguém cai, alguém aprende, alguém revela uma camada inesperada. O elenco vira companhia — e isso é metade da maratona.

Kim Ji-won e Kim Soo-hyun têm química do tipo que equilibra o dramalhão com humor na medida certa: aquele riso curto que aparece no meio do caos e impede a série de virar uma sessão de sofrimento contínuo. E tem um detalhe importante: o roteiro evita a armadilha fácil de transformar a CEO em “a culpada do relacionamento” e o marido em “coitado vítima da família”. Os dois erram, os dois escondem, os dois se protegem como sabem — e a série cresce quando trata isso como fricção humana, não como julgamento moral.

E aí entra o vilão Eun-seong (Park Sung-hoon), que é um desses antagonistas que elevam o nível da sala. Ele tem presença física, controle corporal, uma energia calculada que beira o predatório, mas sem cair na caricatura do “malvado de bigode”. O mérito aqui é dar humanidade suficiente para você entender o mecanismo do personagem — sem precisar “passar pano” ou inventar redenção. Ele é ameaça porque parece plausível, e plausibilidade é gasolina premium para k-drama de intriga.

O problema é que, antes do episódio 5, a série testa tua paciência. Os episódios são longos, a premissa sozinha nem sempre sustenta o ritmo, e algumas subtramas ficam com cara de “enchimento elegante” — bonito, bem produzido, mas ainda enchimento. Quando engrena, engrena rápido: o romance volta a pulsar, o thriller corporativo ganha tração, e o melodrama passa a operar no modo “só mais um episódio”. Ainda assim, nem toda reviravolta tem o mesmo peso: tem doença que some quando não é útil, lei que dobra convenientemente, destino que insiste em virar argumento narrativo. Se você é cético, vai notar. Se você topa a brincadeira, a série te leva.

Um dos elementos que ajudam muito a amarrar emoção é a trilha sonora. K-drama bom sabe que música não é só fundo: é gatilho. Rainha das Lágrimas usa isso bem, com canções que entram para marcar o casal, a perda, o retorno, a esperança — aquela engrenagem clássica que transforma uma cena “ok” numa cena que dá vontade de reassistir.

No fim, Rainha das Lágrimas é menos “inovação” e mais “execução competente do que o gênero promete”: um melodrama de luxo que começa devagar, mas recompensa quem fica. Se você quer romance adulto com crise real (do tipo que mistura amor, orgulho, culpa e família metendo a colher), intriga corporativa e personagens que viram vício, é um prato cheio. Só não vá esperando sutileza realista: aqui é o reino das emoções grandes — e quando a série aceita isso sem vergonha, ela brilha.

Nota (minha régua de maratona): 4/5
Onde assistir: Netflix