Durante o período de ditadura na Argentina dos anos 80, Luís Molina, um rapaz homossexual preso após ser flagrado em um ato íntimo com outro homem em um banheiro, é obrigado a dividir uma cela com Valentín Arregui, um preso político. Molina é sonhador, deslumbrado, com um fascínio pelo mundo feminino em sua estética de glamour, delicadeza e perfeição sob os holofotes e fora dele. Arregui é um revolucionário idealista, silencioso, centrado, seco, atento e sempre combativo ao ambiente hostil em que se encontra. Em uma espécie de fuga da realidade opressiva e bruta vivida na prisão, Molina, mais suscetível a socializar, narra em detalhes para um Arregui inicialmente resistente, a história de seu filme favorito de romance e fantasia: O Beijo da Mulher-Aranha. A partir daí então, o diretor Bill Condon faz uso dos recursos mais cênicos e performáticos possíveis em sua obra para delimitar muito bem dois núcleos que, embora independentes, servem um ao outro de forma a se conduzirem adiante.
O Beijo da Mulher Aranha é musical (sim, é um musical. Tiremos de uma vez este elefante branco da sala), vibrante, cheio de cores saturadas e coreografias ao alternar com o ambiente claustrofóbico, cinza, hostil e repressor da prisão. Molina, vivido pelo talentoso e cheio de presença cênica Tonatiuh Elizarraraz, parece uma extensão deslocada daquele universo do qual quer tanto fazer parte, porém um tanto desprovido da mesma magia. É como se ele fosse a ponte resistente entre um mundo e outro, mesmo parecendo prestes a desabar. A paixão com a qual o personagem narra suas histórias para Valentín (vivido por um Diego Luna totalmente entregue ao papel) é acompanhada pelos cortes sem firulas de Bill Condon, proporcionando uma transição seca e simples porém charmosa e eficaz justamente por ressaltar o contraste entre real e imaginário. E encontrar Jennifer Lopez do outro lado interpretando Ingrid Luna, a musa inspiradora de Molina, vivendo suas histórias de amor, paixão, fuga e sacrifício regadas a coreografias e canções com ares de espetáculo da Broadway, é uma satisfação.
Se no filme original da década de 80 dirigido por Hector Babenco havia um viés político muito mais presente e uma intenção de discutir o contexto sociopolítico nazista, aqui Bill Condon opta por dar o contexto da ditadura argentina em notas exibidas apenas no início e no fim da película, abrindo espaço para que a sua versão seja uma celebração da capacidade da arte em proporcionar escapismo em tempos difíceis, muito mais do que ser um comentário político. Sai boa parte do clima lúgubre e soturno idealizado por Babenco, que por vezes até ganha pontualmente características noir; entra a alternância entre claro e escuro, saturado e desaturado, crueza e explosão de cor e música da composição cênica de Condon, inspirado muito mais no musical da Broadway de 1995 do que no livro de Manuel Puig da década de 70.
E se tem algo que Condon soube fazer bem é se beneficiar de sua experiência em musicais (roteirista em “Chicago”, roteirista e diretor em “Dreamgirls”). Ele tem plena consciência da abordagem específica para cada número musical visto na tela. É perceptível o quanto ele gosta de filmar essas sequências, principalmente quando se deleita na ação do momento, sem afobação ou pressa, deixando a cena acontecer, aproveitando espaços e performances.
Por fim, talvez o principal ponto de contato entre as várias versões de O Beijo da Mulher Aranha – do livro, passando pelos palcos e chegando nos filmes – seja a progressão da relação entre Molina e Valentin. Unidos de forma obrigatória pela delimitação do espaço físico, unidos de forma voluntária pela necessidade de sobrevivência. Amparados por imaginação e se reconhecendo em sua necessidade de afeto e liberdade. Sem dúvida, um trajeto revolucionário, que neste mais novo filme nada deixa a desejar.

