Se você achou que o Carnaval de 2026 seria apenas sobre bloquinhos e glitter, Emerald Fennell (a mente brilhante e intencionalmente provocativa por trás de Bela Vingança e Saltburn) tinha outros planos. E eles envolviam muita névoa, obsessão tóxica e o magnetismo de Jacob Elordi.
A nova adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes“ (sim, com aspas no título oficial, um toque metalinguístico da diretora) não apenas estreou; ela chutou a porta das bilheterias. Em sua primeira semana, o longa atraiu mais de 409 mil pessoas às salas brasileiras, arrecadando R$ 9,6 milhões. O resultado? O topo absoluto no Brasil e no mundo, provando que o público está sedento por clássicos reimaginados com uma pitada de “caos moderno”.
Uma releitura “Brat” e visceral
Esqueça as versões comportadas da BBC que você viu na escola. Emerald Fennell não está interessada em fidelidade histórica ou figurinos que sigam o rigor de 1847. Como apontamos em nossa crítica aqui no Cinema de Buteco, o filme é uma experiência sensorial que se aproxima mais de um “dark romance” erótico do que de um drama de época tradicional.
A trama foca na primeira metade do livro de Emily Brontë, concentrando toda a energia na relação explosiva entre Cathy (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi). Ao cortar a segunda geração da obra original, Fennell transforma a história em uma tragédia crua sobre um amor que implode antes de ter qualquer chance de redenção. É o tipo de filme feito para a geração que consome BookTok: visualmente impecável, emocionalmente devastador e embalado por uma trilha sonora de Charli XCX que traz um ar anacrônico e hipnótico às charnecas inglesas.
O Heathcliff “sobrenatural” de Jacob Elordi
Um dos pontos que mais chamou a atenção na nossa análise foi a construção de Heathcliff. Jacob Elordi entrega um personagem que parece “brotar do nada”, ganhando uma força quase sobrenatural e desconfortável em tela. Ele é lindo, vistoso e perigoso — uma combinação que torna difícil para o espectador (e para Cathy) não cair em sua teia, mesmo sabendo que se trata de uma red flag do tamanho de Yorkshire.
Margot Robbie, por sua vez, brilha ao mostrar as nuances de uma mulher dividida entre a paixão avassaladora e as rígidas hierarquias sociais. O filme deixa claro: Cathy ama Heathcliff, mas ela também ama a si mesma dentro do status que o dinheiro de Edgar Linton pode oferecer. É um conflito de classes que Fennell faz questão de sufocar com closes fechados e uma fotografia que transmite uma sensação de isolamento e perigo latente.
Por que o filme está dividindo opiniões?
Como todo filme de Emerald Fennell, “O Morro dos Ventos Uivantes” não passa despercebido. Se por um lado a bilheteria voa, por outro, os puristas da literatura torcem o nariz.
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A “Aesthetic” acima de tudo: A crítica do Buteco destacou que, às vezes, o filme parece se preocupar tanto com o visual que esquece de desenvolver a crueza e a sujeira que tornam o livro um clássico imortal.
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O Erótico vs. O Gótico: Enquanto o livro mal tem um beijo explícito, Fennell carrega no erotismo (ainda que de forma estilizada), transformando a conexão espiritual dos protagonistas em um desejo carnal incontrolável.
O veredito do Buteco: Se você busca uma adaptação literal, pode sair frustrado. Mas, se você quer um blockbuster autoral, ousado e que não tem medo de ser “extra”, este é o seu filme. É o clássico de Brontë passado pelo filtro saturado e provocante de uma das diretoras mais interessantes da atualidade.

