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Review #SalveRosa: o controle que sangra

#SalveRosa é o tipo de suspense que começa como “só mais um drama de bastidores” e termina como um aviso de incêndio tocando dentro do seu crânio. Susanna Lira pega um tema que o Brasil vive fingindo que é “polêmico” (quando, na real, é cotidiano): exploração familiar, criança virando produto, mãe gerenciando cada respiração da filha (Alô, Larissa Manoela). Mas aqui não tem conforto do tweet, sem a piadinha fácil e com a câmera te obrigando a ficar na sala até o desconforto terminar.

E antes que venha o velho papo de “baseado em história real?”, a resposta curta é: não. O filme não adapta um caso específico — ele é ficção inspirada nesse ecossistema de influenciadores mirins e monetização da infância. O que, sinceramente, é ainda pior: porque significa que não dá pra apontar um único culpado e ir dormir em paz. O culpado é o sistema inteiro: família, marca, plataforma, público e aquele adulto que diz “que fofinha!” enquanto ajuda a girar a engrenagem.

A trama coloca Rosa (Klara Castanho) como uma influenciadora de 13 anos adorada por milhões, fazendo conteúdo “fofo” de brinquedos, com a vida perfeita de vitrine. Só que por trás das câmeras a rotina é exaustiva e controlada, e a mãe, Dora (Karine Teles), administra tudo: dieta, agenda, redes, contatos, até o tipo de sorriso que dá mais clique. Se você acha isso exagero “cinematográfico”, parabéns: você não frequenta bastidores de internet. O filme é tenso porque é plausível.

O acerto de #SalveRosa é o tom. Ele não vira panfleto choroso, nem sensacionalismo barato. Ele entende que a pior violência nessa história não é um grito — é a naturalização. A mãe não precisa ser um monstro de capa. Ela só precisa ser eficiente. E Karine Teles faz Dora com aquela energia de gente que se acha indispensável: ela “ama”, ela “cuida”, ela “protege”… e, nesse amor, vai apertando o pescoço até virar coleira. Klara Castanho responde com uma atuação contida e madura: Rosa não é só vítima passiva, é uma menina tentando entender por que a própria vida parece um job que nunca termina.

E aí entra o que o filme faz melhor do que muito thriller gringo: ele constrói suspense sem ficar pulando na sua cara com jump scare. A tensão vem do olhar, do silêncio, da sensação de que o perigo pode morar dentro de casa — e que, às vezes, o “perigo” veste o nome de “mãe”. Quando um acontecimento na escola bagunça o castelo de vidro e Rosa começa a investigar o próprio passado, o filme vira uma espiral de paranoia que não precisa de sobrenatural para te deixar inquieto.

O humor aqui é perverso — não com a vítima, mas com a farsa em volta. Porque tem algo genuinamente grotesco no contraste: por fora, o feed limpinho; por dentro, a vida parecendo um call center emocional com metas de engajamento. É um filme que te faz rir de nervoso quando percebe o quão “normal” virou a frase “ela está cansada, mas é o trabalho”. Criança. Trabalho. Na mesma sentença. E todo mundo fingindo que não ouviu.

O melhor elogio que dá pra fazer a #SalveRosa é que ele conversa com crianças, adolescentes e adultos sem tratar ninguém como burro. Para o público jovem, é quase uma vacina: mostra o preço real do “sonho” e o quanto o amor pode virar controle quando alguém decide que o filho é projeto. Para os adultos, é um espelho feio: a gente se acha contra exploração… até a exploração vir com luz boa e trilha fofa.

Agora, pra não parecer que eu “manifestei” um filme perfeito: em alguns momentos, o roteiro é tão eficiente em deixar tudo sufocante que você sente o peso virar martelo — e isso pode cansar quem espera um thriller mais “divertido” do que “incômodo”. Mas talvez seja parte da honestidade: esse tema não é para ser confortável. O filme quer que você saia mexido, e ele consegue.