leo lins é absolvido

Léo Lins é absolvido: isso significa liberdade para fazer piadas criminosas — ou só para responder por elas?

Existe algo mais brasileiro do que transformar debate jurídico em torcida organizada?
Pois bem: o humorista Léo Lins foi absolvido pelo TRF, teve suspensa a condenação de mais de oito anos de prisão e anulada a indenização de R$ 303 mil por danos morais coletivos. Dois votos a favor, um vencido querendo reduzir pena. Fim do capítulo? Claro que não. Isso é Brasil. Aqui o epílogo já nasce em recurso.

Mas a pergunta que realmente importa — e que ninguém quer fazer sem berrar — é simples:

A absolvição significa que agora está liberado fazer piada criminosa?

Respire.

Não.

E também não significa que humorista deva ser preso por fazer piada ruim.

O que significa, na prática, é outra coisa: liberdade de expressão não é salvo-conduto moral nem blindagem penal automática. É direito de falar — e dever de responder.

E isso incomoda todo mundo.


Liberdade de expressão não é liberdade de consequência

Existe uma confusão conveniente acontecendo há anos: gente que acha que liberdade de expressão é imunidade. Não é. Nunca foi.

Você pode falar.
Você pode provocar.
Você pode ofender.

Mas você também pode ser processado — desde que o processo seja justo, proporcional e dentro da lei.

A Justiça absolver não significa que tudo era genial. Significa que, naquele caso específico, não se sustentou a condenação criminal nos termos em que foi aplicada.

E isso é importante.

Porque quando o Estado erra para “dar exemplo”, ele cria um precedente perigoso. Hoje é um humorista. Amanhã é um jornalista. Depois é você.

O poder punitivo do Estado precisa ser criterioso. Não histérico.


Cancelamento não é Justiça. É plateia com wi-fi.

Enquanto o processo corria, a internet já tinha julgado, condenado, executado e feito documentário.

A cultura de cancelamento virou um tribunal onde:

  • Não existe presunção de inocência.

  • Não existe contraditório.

  • Não existe proporcionalidade.

  • E a pena é eterna.

O cancelamento é confortável porque não exige leitura de acórdão. Só exige indignação performática.

Mas existe uma diferença brutal entre:

👉 Criticar um artista
👉 Não consumir o trabalho dele
👉 Cobrar responsabilidade

e

👉 Defender prisão como catarse moral coletiva

Uma coisa é debate público. Outra é linchamento digital com hashtag.


Humor pode ser ofensivo? Pode.

Humor pode ser cruel? Pode.

Humor pode ultrapassar limites? Sempre ultrapassou.

A pergunta que sempre reaparece é: quem define o limite?

A resposta madura é: a lei define o que é crime.
E a sociedade define o que é aceitável culturalmente.

São esferas diferentes.

Nem toda piada ruim é crime.
Nem toda piada legalmente permitida é moralmente admirável.

É desconfortável? Ótimo. Democracia é desconfortável.


O risco da prisão como resposta automática

Condenar alguém a oito anos de prisão por conteúdo de show é uma medida extrema. Extremismo jurídico costuma produzir duas coisas:

  1. Mártires.

  2. Polarização.

E ninguém aprende nada no meio disso.

Quando o Estado pesa a mão além da proporcionalidade, ele alimenta a narrativa de perseguição e fortalece justamente quem se queria conter.

O Direito Penal é última ratio — última ferramenta. Não deve ser usado como tweet judicial.


Mas então vale tudo?

Também não.

Existe racismo.
Existe discurso discriminatório.
Existe incitação ao ódio.

E esses temas são juridicamente sérios.

A questão não é fingir que não existe dano.
A questão é aplicar a lei com técnica, não com trending topics.

Se houver crime, que se processe.
Se não houver, que se critique.
Mas que não se confunda Justiça com vingança coletiva.


A liberdade que incomoda é a mesma que te protege

A liberdade de expressão é feia. Ela protege o discurso que você odeia. Sempre foi assim.

Se você só defende liberdade quando concorda com o conteúdo, você não defende liberdade — você defende afinidade.

O debate sobre Léo Lins não é sobre gostar dele.
É sobre entender que o Estado não pode punir além do que a lei permite, só porque o ambiente social está inflamado.

A Justiça absolveu? Então a decisão precisa ser respeitada — assim como precisa ser respeitado o direito de crítica.


O que essa absolvição realmente significa?

Significa que:

  • O Judiciário revisou a condenação.

  • Entendeu que não cabia aquela pena.

  • Cancelou indenização.

  • E reafirmou, gostemos ou não, a proteção constitucional à liberdade artística.

Isso não transforma piada em virtude.
Não transforma humorista em herói.
E definitivamente não transforma crítica em censura.

Mas reforça algo fundamental:
Estado não pode punir por impulso.


Conclusão: maturidade é aguentar o que você detesta

Democracia não é sobre proteger o discurso bonito.
É sobre suportar o feio sem virar autoritário.

Quem quer cancelar tudo vira censor informal.
Quem quer criminalizar tudo vira punitivista seletivo.

Nenhum dos dois lados constrói liberdade.

A absolvição de Léo Lins não inaugura uma era de “piadas criminosas liberadas”.
Ela lembra que, numa sociedade livre, você pode falar — e pode ser criticado — e pode ser processado — mas só será condenado se a lei permitir.

E isso é mais importante do que qualquer punchline.

Porque hoje é o humorista.
Amanhã pode ser a sua opinião.

E quando for, você vai querer um tribunal — não um trending topic.