O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: esta crítica tem spoilers leves (nada que estrague o impacto).
Há filmes que te lembram por que “fila de presídio” não é figura de linguagem — é geografia emocional. A Mulher na Fila (Netflix), de Benjamín Ávila, pega Andrea (Natalia Oreiro), uma viúva de classe média acostumada a resolver a vida com ligações e bons argumentos, e a joga na topografia mais honesta do Cone Sul: horas em pé, marmita na mão, revista vexatória, olhar baixo e, paradoxalmente, uma rede de apoio que nasce do nada. A prisão como mundo paralelo? Nada. É o mesmo mundo, só que sem verniz.
O filme acerta quando abandona o impulso de “limpar o nome do meu filho a qualquer custo” e abraça o despertar social da protagonista. Andrea começa furando fila, exigindo prioridade de “mãe de inocente”; termina carregando sacola, aprendendo o nome das outras, partilhando comida e vergonha, entendendo códigos que não vêm em manual. É nessa curva que A Mulher na Fila encontra sua potência: empatia como prática, não como hashtag.
Oreiro está ótima quando a câmera cola no rosto e deixa a máscara da respeitabilidade rachar — o orgulho burguês cede lugar ao pavor de mãe. Amparo Noguera (a temida e terníssima “La 22”) é o tipo de presença que te dá a rota: fala baixo, resolve muito. E Alberto Ammann, como Alejo, funciona melhor como guia de sobrevivência do que como par romântico.
Porque, sim, vem aí o “mas”. Ávila pisa fora da linha quando tenta transformar Andrea em detetive de thriller (negociando com bandido, rastreando chefão) e quando cresce a subtrama amorosa com Alejo. Não é que seja impossível — a vida real é confusa mesmo —, mas o filme fica mais convencional, menos urgente. A cada vez que a narrativa flerta com o policialesco ou empilha coincidências, ela se afasta do que tem de mais raro: o retrato humanista do cotidiano carcerário visto da calçada.
Quando volta para o essencial, a obra respira. O choque de classe dá lugar a aliança de fila; a humilhação vira pedagogia de sobrevivência; o “meu caso” vira “nosso problema”. A fotografia evita o fetiche de cela suja “instagramável” e prefere a aspereza: luz dura, muros sem glamour, o barulho que não para. A montagem entende o rito: espera-se para tudo — e o tempo de espera é a dramaturgia.
Também ajuda a ancoragem no caso real de Andrea Casamento e na militância que nasce dali (ACIFAD etc.). O epílogo factual pode soar didático para alguns, mas encaixa o discurso: não é fábula de superação; é manual de como uma cidadã atravessa a rua e descobre um país.
No fim, A Mulher na Fila é filme de coming of age tardio — não de adolescentes, mas de uma sociedade que finalmente aprende a escutar quem vive do lado de cá do Estado. Para uns, vai doer por identificação. Para outros, por constrangimento. Para nós, que gostamos de cinema que tira o adesivo da ferida devagar, é um lembrete precioso: o portão não separa mundos — só expõe o nosso.
Veredito: quando mira o humano e a política das pequenas coisas, é de apertar o peito; quando cede ao romance/“caso de polícia”, perde pressão. Ainda assim, vale muito a fila.
Nota: 3,5 caipirinhas em 5.

