(Des)controle me fez pensar imediatamente em uma pergunta muito específica: e se Carolina Dieckmann tivesse sido escalada para viver Heleninha Roitman no remake de Vale Tudo? A resposta, depois desse filme, é clara:ela teria dominado completamente o papel. E isso não é um desmerecimento a Paolla Oliveira, que é uma grande atriz e construiu sua própria versão da personagem. Mas o que Carolina faz aqui é de uma entrega tão crua, tão sem filtros, que fica difícil não imaginar até onde ela poderia ter ido com uma personagem daquele calibre.
No longa dirigido por Rosane Svartman e Carol Minêm, acompanhamos Kátia Klein, uma escritora de 45 anos aparentemente bem-sucedida, mas emocionalmente exausta. Ela vive um bloqueio criativo, um casamento em desgaste e carrega expectativas familiares que pesam mais do que deveriam. O vinho surge primeiro como escape social, depois como anestesia, até que o controle deixa de existir. O filme não transforma isso em espetáculo nem em lição de moral. Ele observa.
Além disso, o que mais me impactou foi a honestidade com que Carolina Dieckmann constrói essa mulher. Kátia não é caricata, nem “didática”. Ela é contraditória, irritante em alguns momentos, vulnerável em outros, e profundamente humana o tempo todo. Carolina consegue mostrar todas as camadas de uma pessoa alcoolista: a negação travestida de normalidade, a vergonha silenciosa, a sensação constante de estar falhando consigo mesma.
O filme também deixa claro como essa luta se intensifica quando atravessada pelo machismo. A cobrança sobre o comportamento feminino, o julgamento constante e a falta de empatia tornam o caminho de Kátia ainda mais solitário. Embora o roteiro tenha alguns tropeços e simplificações, há uma sensibilidade evidente em tratar o alcoolismo feminino como algo que vai além da bebida, envolvendo culpa, silêncio e expectativas irreais impostas às mulheres.
Algo que me incomodou um pouco foi a construção dos personagens masculinos. Eles são rasos, pouco empáticos e quase sempre ausentes emocionalmente. Em vez de apoio, oferecem julgamento ou indiferença. Entendo que isso dialoga com a realidade de muitas mulheres, mas em alguns momentos essa falta de complexidade enfraquece as relações ao redor da protagonista.
Por outro lado, o filme acerta muito ao destacar a importância das amizades e das redes de apoio. São nesses vínculos que (Des)controle encontra seu respiro. Dessa forma, longa entende que a recuperação não é solitária, nem linear, e que o acolhimento, ainda que mesmo imperfeito, faz diferença.
(Des)controle não é um filme perfeito, mas é um filme necessário. Ele se sustenta pela sensibilidade do olhar e, principalmente, pela atuação monumental de Carolina Dieckmann. Quando uma atriz se permite ir tão fundo sem apelar para exageros, o resultado é esse: um retrato doloroso, verdadeiro e difícil de ignorar.

