elefante é bom

Review Elefante: Gus Van Sant transforma rotina escolar em labirinto do horror

poster elefante
Sempre que o impensável acontece em um ambiente que deveria ser seguro, o instinto humano é disparar uma metralhadora de interrogações: “o quê?”, “quem?” e, principalmente, “por quê?”. Elefante, lançado em 2003, não está nem um pouco interessado em satisfazer essa curiosidade mórbida com respostas de manual de psicologia. Inspirado pelo massacre na escola de Columbine, ocorrido em 1999, o diretor Gus Van Sant evita o caminho óbvio do drama policial para criar algo muito mais perturbador: um registro quase documental da banalidade antes do caos. O filme nos transporta para uma escola em Oregon, mas recusa-se a ser um juiz dos eventos; ele prefere ser uma sombra que perambula pelos corredores.

A técnica aqui é a alma do negócio. Van Sant utiliza planos-sequência longuíssimos, onde a câmera segue os estudantes pelas costas, navegando pela geografia da escola como se estivesse mapeando o destino de cada um. Não há cortes rápidos ou trilhas sonoras manipuladoras para te dizer como se sentir. O que vemos é o tempo real da adolescência: o caminhar lento, os diálogos triviais e a rotina sufocante. Essa escolha estética obriga quem assiste a mergulhar na subjetividade daqueles jovens, tornando o espectador uma testemunha silenciosa de vidas que estão prestes a colidir com a violência cega.

Como a tragédia final já é de conhecimento público, o roteiro joga com a expectativa ao apresentar um mosaico de personagens sem entregar, de imediato, quem segurará a arma. Somos apresentados a John, que lida com o alcoolismo do pai no banco do carro; acompanhamos Michelle, Eric e Alex, que enfrentam o isolamento e as agressões silenciosas do bullying; observamos as fofocas inofensivas das garotas populares e a segurança aparente dos atletas. Ao mostrar quem são esses jovens e como eles habitam aquele espaço antes dos tiros começarem, o filme constrói uma tensão insuportável. Não se trata de justificar o massacre, mas de humanizar as vítimas e os algozes até que a distinção entre eles seja borrada pela mesma luz pálida do final da tarde.

O título do filme faz referência ao provérbio do “elefante na sala” — aquele problema gigantesco que todo mundo vê, mas ninguém ousa mencionar. E é exatamente aí que o texto se fecha de forma magistral. Van Sant não aponta o dedo para os videogames, para o fácil acesso a armas ou para a música alta; ele apenas mostra o elefante ocupando cada centímetro daquele colégio.

A tragédia em Elefante não é um clímax explosivo, é uma consequência fria e silenciosa. Quando os tiros finalmente ecoam, eles não trazem o peso de um filme de ação, mas o som seco de vidas sendo interrompidas no meio de uma frase. O filme termina sem nos oferecer o conforto de uma conclusão moralista. Ele nos deixa ali, parados no corredor, olhando para o vazio e percebendo que, às vezes, o maior horror não está no “porquê”, mas na facilidade assustadora com que o extraordinário se infiltra no cotidiano. O elefante continua na sala, e nós continuamos fingindo que ele não vai se mexer.