Se existe uma força da natureza capaz de desafiar as leis da termodinâmica e do bom senso simultaneamente, essa força atende pelo nome de Tyler Perry. Em sua mais nova investida, o magnata que ergueu um império sobre perucas e sermões dominicais resolveu que era hora de chutar o balde da igreja e mergulhar de cabeça no chorume do humor “proibido”.
O problema é que Perry tentando ser transgressor é como ver um telemarketing tentando ser seu melhor amigo: você sabe que, no fundo, ele só quer te vender algo estragado e ainda espera que você agradeça pelo serviço.
A trama é um amontoado de esquetes que faria qualquer roteirista com um pingo de dignidade procurar o RH mais próximo. Temos Brian — interpretado por um dos dezessete avatares de Perry no filme —, um promotor de justiça que, apesar do cargo, possui a acuidade mental de uma torrada fria. Ele continua buscando conselhos com seu pai, Joe, um patriarca que parece ter sido montado com sobras de restos de asfalto e veneno de rato, e com a onipresente Madea.
O conflito da vez? O filho de Brian, BJ — uma sigla que Perry usa para uma piada de quinta série que se arrasta por dois atos —, é um jovem tão sensível que provavelmente precisaria de um espaço seguro se ouvisse o barulho de um motor de partida. Ele é vegano, alérgico a tudo o que não seja orgânico e acredita piamente que a história é algo que se resolve com um post de indignação no Instagram.
Para “curar” essa fragilidade, o vovô Joe decide sequestrar o neto em uma viagem de carro rumo à faculdade, dentro de um Buick que consome combustível fóssil com a sede de um pirata em uma destilaria de rum. A dinâmica é clara: o “velho da nuvem” contra o “garoto do TikTok”. Perry escreve como se tivesse acabado de descobrir o que é um conflito geracional, mas decide resolvê-lo da forma mais sutil possível: jogando fora os medicamentos para asma do garoto e forçando-o a comer frango frito como se fosse um rito de passagem tribal. É o tipo de pedagogia que faria o sargento de Nascido para Matar parecer um instrutor de yoga em um retiro espiritual.
Enquanto cruzam o país, o filme tenta ser uma espécie de híbrido mutante entre um documentário do History Channel sobre a experiência negra e um episódio perdido de Jackass. Em um momento, estamos assistindo a uma tentativa patética de paródia de The Matrix em um bar de rednecks; no outro, somos jogados em um bordel no Texas onde Perry decide que tráfico sexual é um ótimo pano de fundo para uma comédia de erros. É uma esquizofrenia tonal que daria náuseas até no espectador mais acostumado com as montanhas-russas de mau gosto da Netflix. É o cinema transformado em uma linha de produção de fast-food: você sabe que não tem valor nutricional, o cheiro é suspeito, mas a entrega é rápida e o marketing é agressivo.
Joe é um personagem que se comunica basicamente através de flatulências e insultos que seriam considerados crimes de ódio em 48 estados. Já BJ é o espantalho perfeito da “geração floquinho de neve”, servindo apenas para ser humilhado até que aprenda a “ser homem”. Perry tenta enfiar goela abaixo uma mensagem sobre respeitar os ancestrais, mas faz isso enquanto mergulha a câmera em piadas sobre banheiros de rodoviária e glórias holes. É como tentar ler um manifesto filosófico impresso em papel higiênico usado. Não importa quão profunda seja a frase, o suporte torna o consumo impossível.
No fim das contas, a obra é um monumento ao narcisismo de um autor que se recusa a ser editado. Perry dirige, escreve, produz e atua contra si mesmo em três camadas de maquiagem que parecem estar derretendo sob o peso da própria irrelevância criativa. Ele criou um universo onde a lógica é opcional e a sutileza é tratada como uma doença contagiosa. Se a ideia era mostrar que a juventude atual está perdida, Perry conseguiu apenas provar que ele mesmo não faz ideia de onde deixou o mapa. É um acidente de trânsito cinematográfico onde você não consegue desviar o olhar, não pela beleza do caos, mas pelo puro espanto de que alguém tenha autorizado o licenciamento dessa frota. No grande teatro da vida, Perry continua sendo aquele ator que não sai do palco nem quando as luzes já se apagaram e o pessoal da limpeza já quer ir para casa.

