Se você acha que o trânsito na Marginal Pinheiros é o maior pesadelo que São Paulo pode oferecer, Salve Geral: Irmandade está aqui para te apresentar a um novo nível de desespero urbano. O filme já começa chutando a porta com uma sequência inicial que deveria ser estudada por qualquer um que pretenda dirigir ação neste país: um plano-sequência coreografado com a precisão de um relógio suíço — ou de um ataque coordenado — mostrando um atentado contra uma delegacia.
É o tipo de virtuosismo técnico que te faz esquecer de piscar e que estabelece, logo de cara, que não estamos aqui para brincadeira. É a estética do caos servida em uma bandeja de prata, ou melhor, em uma cápsula de fuzil.
O longa expande o universo da série original, mas decide focar no ponto de ruptura: a transferência de líderes criminosos que transforma a metrópole em um território sitiado. No centro desse furacão está Elisa, filha de Edson (Seu Jorge, com a gravidade de quem carrega o mundo nas costas), sequestrada por policiais corruptos que tratam a farda como um crachá de livre acesso ao mercado de sequestros.
É a velha história de quem deveria proteger, mas prefere lucrar. O poder aqui não se importa com você; ele se importa apenas com a própria manutenção, e a farda é só a ferramenta para garantir a fatia do bolo.
A trama acompanha a tentativa desesperada de Cristina (Naruna Costa, sempre equilibrando exaustão e fúria) de resgatar a sobrinha enquanto a facção ordena o “salve geral”. O que vemos na tela não é apenas ficção; é o espelho incômodo de uma realidade que insistimos em ignorar até que ela queime o ônibus em que estamos.
O suspense aqui não oferece uma catarse fácil; não há um final feliz com pôr do sol e trilha sonora esperançosa. A violência não é um espetáculo gratuito feito para vender pipoca; é um sintoma clínico de um Estado que apodreceu por dentro. É o sistema visto de baixo para cima, onde o asfalto é quente e a justiça é uma palavra que não consta no dicionário das margens.
O brilho da produção reside na coragem de não suavizar a corrupção estrutural. Os dois agentes que movem o conflito principal são o motor do caos, provando que o crime organizado muitas vezes é apenas o reflexo do crime institucionalizado. Camilla Damião entrega uma atuação nervosa como Elisa, carregando o peso de um sobrenome que é, ao mesmo tempo, um escudo e um alvo. O subtexto racial atravessa cada abordagem policial, cada silêncio tenso, sem precisar de um megafone para ser ouvido. É cinema de ação com cérebro e consciência social, algo raro em um mar de produções que preferem o tiro pelo tiro.
Nem tudo é perfeito, claro. O desfecho flerta com um certo fatalismo que pode soar apressado, como se o roteiro estivesse ansioso demais para fechar a conta. E para quem caiu de paraquedas sem ver a série, a hierarquia da organização pode parecer um pouco nebulosa no início. Mas nada disso apaga a potência visual e a crueza narrativa que o filme entrega. É um retrato amargo de um Brasil onde a lei e o crime trocam de roupa no mesmo vestiário.
No fim, o filme é um lembrete de que, em São Paulo, o silêncio é um luxo e a sobrevivência é uma tática de guerra diária. É uma obra que te deixa com o estômago embrulhado, não pelas cenas de sangue, mas pela percepção de que, quando as luzes se apagam e os créditos sobem, a realidade lá fora continua exatamente igual. Se você quer ação de alta voltagem e um motivo para perder o sono, dê o play. Só não espere sair ileso.

