Roman Polanski sempre colocou seus demônios pessoais na tela. Em Lua de Fel (Bitter Moon, 1992), ele assina talvez o filme mais próximo do soft porn de sua carreira — e, claro, o mais perverso. Resultado? Um cruzeiro pelo desejo, pelo poder e pela ruína, embalado por George Michael, Bryan Ferry e até Fausto Fawcett (!).
A trama começa com Nigel (Hugh Grant) e Fionna (Kristin Scott-Thomas), casal britânico certinho que comemora o aniversário de sete anos de casamento num navio rumo à Índia. O tédio acaba quando eles conhecem a francesa sedutora Mimi (Emmanuelle Seigner) e seu marido paraplégico Oscar (Peter Coyote). O detalhe é que Oscar percebe a cobiça de Nigel e decide “adotá-lo” para ouvir sua história de amor — ou melhor, sua história de obsessão, BDSM e destruição conjugal — antes de “autorizar” qualquer transa.
Seigner é o grande imã do filme. Mais do que as inúmeras cenas picantes (incluindo o striptease que Polanski filma com a câmera mais erótica que a própria dançarina), ela se transforma ao longo da trama: de Lolita blasé a figura trágica. Grant é perfeito como o inglês engomado que esconde um monstro reprimido, e Scott-Thomas contrasta com elegância e silêncio. Já Coyote é a voz ácida que narra o apodrecimento de uma paixão em tempo real.
O que diferencia Lua de Fel de um mero soft porn é a crueldade com que Polanski expõe o jogo de poder entre dominante e submisso. Oscar e Mimi brincam com os papéis até se perderem em inversões que deixam de ser eróticas para virar tortura emocional. E, quando o espectador acha que tudo é kitsch, vem o café da manhã mais surreal da história do cinema — leite, pães pulando da frigideira e George Michael tocando ao fundo. Humor negro puro.
E se restava dúvida do tom, Polanski ainda coloca Seigner dançando ao som de Slave to Love, de Bryan Ferry, e Coyote perdido em boates ao som de Kátia Flávia. É brega, sim. Mas é um brega calculado, feito para nos lembrar que, quando paixão vira obsessão, a tragédia vem mascarada de striptease.
A pergunta que não quer calar:
Lua de Fel é um drama erótico ou uma comédia cruel sobre a falência do desejo?

