O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: contém spoilers, frascos de RadAway, sarcasmo radioativo e referências que fazem o fã sorrir feito Ghoul depois do 3º Nuka-Cola.
Se a 1ª temporada provou que “jogo virando série” não precisa ser sinônimo de desastre, a 2ª confirma: Fallout não é exceção feliz — é o novo padrão. A continuação pisa com firmeza no mesmo terreno: retro-futurismo açucarado dos anos 50 temperado com cinismo pós-apocalíptico, enquanto Lucy (Ella Purnell) e o sempre carismático e carcomido Cooper/“O Ghoul” (Walton Goggins) atravessam o deserto rumo a New Vegas para ajustar contas com o passado — e com Hank (Kyle MacLachlan), que continua especialista em “paternidade vault-toxica”.
A novidade é o compasso: aqui a música toca mais lenta, mais malandra. É slow burn de propósito, do tipo que cozinha personagens no fogo baixo até o caldo engrossar: Lucy deixa a ingenuidade escorrer pelas frestas, Cooper ganha camadas que não cabem só em maquiagem (os flashbacks de farda e trauma doem certo) e Maximus (Aaron Moten) amadurece na marra entre juramentos da Irmandade do Aço e dilemas que não cabem num manual. No paralelo, a sátira corporativa ganha esteroides: Bud Askins em modo “cérebro-no-roomba” é a piada perfeita sobre CEOs que nunca desligam — literalmente — e Robert House (Justin Theroux) chega com aquela elegância Howard Hughes meets mafioso do Mojave e um gadget cervical que vale por um monólogo inteiro sobre compliance à bala.
E por falar em bala: ação tem, e quando vem morde — emboscadas sujas, POV de poeira cortando a lente, set-pieces que sabem quando estourar e quando sumir no horizonte para deixar a moral da história bater. A fotografia caprichosa encontra um equilíbrio quase impossível: o mundo está quebrado, mas o quadro é bonito pra cacete; nada de miséria pornográfica, nada de filtro “cinza Netflix”. É cor de ferrugem, neon, sol de 16h. E Goggins, meus caros… cresce. Entre o faroeste crepuscular e a farsa de um velho astro que não morreu, ele é o anti-herói definitivo do Wasteland: engraçado, perigoso, melancólico. Ella Purnell segura o contra-campo com doçura e ferro; dá para ver a luz da Vault apagando atrás dos olhos, e isso dói do jeito certo.
“Mas e os fãs dos jogos?” Relaxa: a liturgia Fallout está toda lá — humor negro de manual, Vault-Tec como se fosse Umbrella com sorriso Colgate, New Vegas piscando o olho, faixas sonoras que parecem abraçar e cutucar ao mesmo tempo. O roteiro não aponta para fanservice barato: costura as referências para contar algo, não para marcar figurinha.
Tem tropeço? Dois, e nada fatais. O pacing abraça tanto o “lento” que alguns blocos de meio de temporada parecem side quest que esqueceu de acabar, e um ou outro acrônimo de facção ocupando tela além da conta dá aquela cara de tutorial estendido. Ainda assim, quando a série chama cena grande, entrega cena grande — e quando prefere um olhar e silêncio, entrega personagem.
Veredito do Buteco: Fallout T2 é Radiant Quest de luxo: começa manso, termina mexendo nos alicerces e, no caminho, confirma que o Wasteland pode ser brutal sem perder o senso de humor — e épico sem virar videoclipe. Se a 1ª temporada te convenceu a sair da Vault, a 2ª prova que vale ficar no sol.
Nota: 4/5 — Coquetel de Rad-Negroni. Amargo, elegante, radioativo na medida. Prepare o Pip-Boy: o endgame já está desenhado no mapa — e a gente quer ir até o fim.

