tire 5 cartas é bom?

Review Tire 5 Cartas: é um refresco na comédia brasileira

Tire 5 Cartas é o tipo de comédia brasileira que aparece como boa notícia justamente porque, nos últimos anos, o gênero andou sumido das salas — e quando apareceu, muitas vezes veio abaixo da média. Aqui, Diego Freitas faz o básico que anda raro: entrega um filme leve, simpático e com personalidade, ancorado numa protagonista que poderia virar “trapaceira qualquer” em mãos erradas, mas ganha humanidade, graça e um charme cansado na atuação da Lília Cabral.

A história é simples e bem brasileira. Fátima (Lília) saiu de São Luís do Maranhão para o Rio sonhando em ser cantora. Não rolou. O tempo passou, a vida apertou e ela trocou palco por tarô — só que com um truque bem safado e bem plausível: ela e o marido Lindoval (Stepan Nercessian) “preparam” as leituras bisbilhotando clientes nas redes sociais. Quando um anel valioso entra no caminho dela por acidente e o crime chega junto, o casal foge de volta para São Luís. E aí o filme vira “volta às origens”: reencontro com família, com a cidade, com o que ficou pra trás — e com a pergunta silenciosa que bate em qualquer um que saiu de casa cheio de sonho: valeu a pena?

Freitas até encosta num existencialismo de leve — frustração, sonho interrompido, arrependimento — mas não quer cavar buraco. Tire 5 Cartas é pra cima, tem ritmo de comédia popular e funciona melhor quando abraça essa energia. O grande acerto é que ele deixa o filme respirar cultura local sem parecer cartilha de turismo: São Luís aparece com cor, cotidiano e humor, e a história usa isso como parte do prazer do filme, não como enfeite. As participações musicais (Magal, Alcione e surpresas) entram como tempero afetivo, aquela piscadela que casa com a proposta de “filme de público” sem vergonha do próprio DNA.

E tem o fator que segura tudo: a química. Lília e Stepan são um casal crível, engraçado, com o tipo de parceria que parece ter história — e isso faz diferença. A Fátima é uma personagem que vive de pequenas vigarices, mas não é caricatura: ela tem culpa, tem ambição antiga, tem um coração que o filme não tenta santificar nem demonizar. É por isso que a comédia flui: você ri com ela, não só dela.

O principal problema é a subtrama do roubo. Ela existe para empurrar o casal de volta ao Maranhão, mas depois ganha um peso que sobra dentro do filme. Quando a narrativa insiste nos bandidos e na “correria criminal”, você sente vontade de estar mais na pensão, mais nos encontros, mais na dinâmica familiar e nos personagens ao redor — que são justamente onde a comédia brasileira costuma brilhar quando está inspirada.

Mesmo assim, o saldo é bom. Tire 5 Cartas não tenta ser mais “importante” do que precisa e não se complica para parecer sofisticado. Ele é simples, acessível e, por isso mesmo, funciona como um refresco: uma comédia que sabe o que quer, tem timing, tem uma protagonista forte e usa o Brasil (e o Maranhão) como identidade, não como cenário genérico. Se você está com saudade de filme nacional leve, com coração e sem vergonha de ser popular, pode comprar esse bilhete.