Alguns filmes de terror querem te assustar. Outros querem te chocar. Extermínio: O Templo dos Ossos quer algo mais difícil: te deixar desconfortável, confuso, fascinado e, em certos momentos, rindo de nervoso. E consegue.
Depois de Extermínio (2002), que reinventou o gênero ao colocar zumbis para correr, e de uma continuação irregular, a franquia voltou com força em Extermínio: A Evolução — um filme mais de sobrevivência e amadurecimento do que propriamente um terror raiz. Bom filme, mas que frustrava expectativas de quem queria sangue, caos e insanidade pura.
O Templo dos Ossos entende essa frustração… e responde com algo completamente diferente. Aqui, o terror não está mais nos infectados. Eles continuam lá, mas não são o centro. O verdadeiro horror agora tem rosto, discurso, ideologia e nome próprio.
O filme troca o medo da contaminação pelo medo do ser humano organizado em seita, do fanatismo no fim do mundo, da violência que nasce não da doença, mas da crença.
O personagem vivido por Jack O’Connell é isso em estado bruto: ele não é apenas um vilão, ele é a encarnação do terror.
Líder de um culto conhecido como Os Dedos, todos chamados Jimmy, ele transforma o apocalipse num palco para delírio religioso, poder e violência ritualística. É menos zumbi movie e mais terror de seita satanista no colapso da civilização.
E isso funciona — funciona muito.
O roteiro de Alex Garland abandona a lógica da sobrevivência imediata e aposta numa abordagem mais filosófica, mais trágica, quase existencial. O mundo acabou. O que sobra agora não é lutar para viver, mas decidir em que tipo de monstro você vai se tornar.
Nesse cenário entra o personagem de Ralph Fiennes, que já era inquietante no filme anterior e aqui vira algo ainda mais perturbador: um médico obcecado, uma figura ambígua entre ciência, loucura e ética. Um homem que tenta curar os infectados, devolver consciência a algo que já perdeu qualquer traço de humanidade.
O confronto entre ele e o personagem de O’Connell não é apenas físico.
É ideológico.
É simbólico.
É o embate entre ciência enlouquecida e fé doentia.
E quando esse encontro acontece… o filme simplesmente surta.
A violência em O Templo dos Ossos é talvez a mais pesada da franquia — e paradoxalmente, a menos explícita. A câmera não se demora no gore. Ela sugere. Ela esconde. Ela deixa o espectador completar mentalmente o que está acontecendo.
E isso é muito mais perturbador.
É Spielberg em Tubarão: o que você não vê te assombra mais do que o que está escancarado. O desconforto cresce porque o inconsciente trabalha sem parar. Mas nada — absolutamente nada — prepara você para o momento em que o filme resolve abraçar o caos com estilo.
Porque Extermínio: O Templo dos Ossos tem algo que nenhum outro filme de zumbi jamais teve:
Iron Maiden usado do jeito mais insano da história do cinema. A sequência no Templo dos Ossos, com Number of the Beast tocando inteira, enquanto a violência acontece num estado quase ritualístico, é daquelas cenas que fazem você rir, travar e pensar: “Que porra é essa… e por que isso é tão genial?” É um momento inesperado, anárquico, quase psicodélico. Um médico dançando, uma seita derretendo, crânios empilhados, alucinação química, heavy metal ecoando no fim do mundo.
Não é elegante.
Não é confortável.
É cinema em estado selvagem.
O filme ainda encontra espaço para algo raro numa franquia longa: respeitar seus personagens antigos. O protagonista de A Evolução reaparece, mas o roteiro entende que a história agora é outra. Ele não é diminuído, não é desrespeitado — apenas não é mais o centro. O foco está claro: Jack O’Connell, Ralph Fiennes e o colapso moral do mundo. E isso é uma escolha corajosa.
Extermínio: O Templo dos Ossos não quer agradar todo mundo. Ele não é um terror fácil, não é um filme de zumbi tradicional, não é feito para quem quer conforto narrativo ou respostas simples. Ele é apocalíptico, sujo, estranho, filosófico e absurdamente criativo. E por isso mesmo, já nasce com lugar garantido entre os melhores filmes de terror do ano. Se não estiver no Top 5 no final do ano, pode ter certeza: 2026 será histórico para o gênero.
Veredito Cinema de Buteco
Um terror que troca zumbis por fanatismo, sobrevivência por ideologia e medo por desconforto existencial — com Iron Maiden no volume máximo.

