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Buteco Literário

Resenha: Vertigo – Um corpo que cai chega ao Brasil na coleção Hitchcock!

Publicado originalmente em 1954, Vertigo – Um Corpo que Cai acaba de chegar ao Brasil em uma edição de luxo na coleção Hitchcok, lançado pela editora Vestígio! Confira nossa resenha.

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“É isso mesmo – disse Gévigne. – Quero que você vigie minha mulher.

-Diabo! …. Ela está traindo você?

-Não.

-Então, por quê?

-Não é fácil explicar. Ela anda estranha…. Estou preocupado”.

Publicado originalmente em 1954 com o título D’entre Les Morts, Vertigo – Um Corpo que Cai acaba de chegar ao Brasil em uma edição de luxo na coleção Hitchcok, lançado pela editora Vestígio.

Com tamanho sucesso, a Vestígio, editora pertencente ao Grupo Autêntica, apostou em na publicação de livros ligados a grandes obras clássicas do cinema. Com o objetivo de ampliar o catálogo, reconhecido por oferecer literatura policial de qualidade com autores europeus referências nos gêneros de thrillers, scandi crime e suspense histórico, chega no Brasil a coleção Hitchcock. E para começar falando desta coleção incrível, vamos falar de Vertigo – Um corpo que cai.

O filme seguiu o enredo criado no romance de forma surpreendente, e, por mais que sejam poucas, as mudanças são bastante significativas, principalmente com relação às motivações dos personagens.

A trama começa em 1940, quando o detetive policial Flavières é forçado a renunciar seu trabalho após um acidente em um telhado. O protagonista havia perseguido um suspeito, mas acabou sofrendo um ataque de vertigem e perdeu a coragem. Como resultado, seu colega policial acaba sendo morto.

“Pois há verdades em que não podemos deter nosso pensamento sem sentir imediatamente uma vertigem da alma, cem vezes mais horrível que a vertigem do corpo”.

Mais tarde, Flavières trabalha como advogado e é contatado para ajudar em um assunto delicado. Um velho conhecido está preocupado com o comportamento de sua esposa, Madeleine Gévigne, e pede para que Flavières fique de olho nela. Com o passar da investigação, Flavières percebe que entre suas ausências, mistérios e melancolia não há nenhum amante, nenhuma simulação e nenhuma doença. Apenas uma estranha relação com a bisavó, Pauline Lagerlac, morta em circunstâncias terríveis e a quem a jovem Madeleine não chegou a conhecer. Nisso, o detetive se torna obcecado pela mulher, tornando-a um objeto de desejo e obsessão.

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“Eu desci um longo corredor. No fim do corredor nada além de mim e da escuridão. Eu estava na escuridão”.

Com tamanho desejo pela mulher de seu cliente, o trabalho de Flavières acaba sendo mais difícil do que ele imagina. Afinal, estamos falando de uma história de obsessão de um ex-policial com uma mulher, com a morte e com o controle e identidade.

“Flavières andava sem rumo. Não devia ter bebido. Não devia ter ido ao correio. Estava mais tranquilo antes! Por que não podia se contentar em simplesmente amar aquela mulher, sem envenenar com aquelas obsessões sua vida comum? Está certo que aquela prova indireta não valia nada. Uma coincidência não é uma prova. Então? Devia ir a Dambremont? Vasculhar os escombros? Estava ficando odioso. E se, cansada de suspeitas dele, de suas censuras, de sua vigilância irritante, ela o abandonasse? Sim…. Se um belo dia ela fugisse…”

Entre a obra original e o clássico adaptado de Hitchcock há algumas diferenças. Entre elas, está a mudança no protagonista. No filme, Flavières se torna Scottie Ferguson, um homem perturbado, sombrio e com alguns problemas emocionais e sexuais bem graves, e também responsável por grande parte da emoção e ironia apresentada no filme. Já Flavières não sofre de tantas ilusões sobre si mesmo. E é esse pequeno grande detalhe que muda o desfecho no livro x filme.

As diferenças na construção dos personagens, a importância da Segunda Guerra Mundial como plano de fundo da obra, tom e caracterização fazem com que as obras sejam bem distintas. O filme, como todos já sabem, é uma obra-prima. O romance de Boileau e Narcejac, um excelente romance policial.

Ficha TécnicaVertigo - Um Corpo que Cai

Título | Vertigo (Um corpo que cai)
Autor | Boileau-Narcejac
Tradutor | Fernando Scheibe
Editora | Vestígio
Idioma | Português
ISBN | 978-85-8286-289-6
Especificações | 192 páginas, Coleção Hitchcock, Capa Dura.

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Xaveco de Buteco: Conto #9 Prazer! Sou a Ana.

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Prazer! Sou a Ana.

Aos 30 de setembro, vim ao mundo, parto natural, recebi o nome de Ana. Casa cheia. Eu, meus pais e irmãos. Tinha também o Floquinho e a Belinha, nossos peludos. Andei, falei, corri, brinquei, aprendi a escrever, como toda criança! Vivi uma infância feliz.

Ah, não! Espinhas na cara. Chegou a menarca? Que saco! Conflitos, insegurança, noias na cabeça, raiva, brigas, tédio… odeio estudar! Ainda perguntam “qual é a faculdade que quer fazer?” Vestibular, dezenas de apostilas, horas de estudos. Aprovada! Agora sou universitária. Faculdade, liberdade, a turma de amigos. Finalmente, sou “de Maior”. Posso tudo! Tenho os passaportes da vida adulta: CNH, diploma e carteira de trabalho.

Trabalho, trabalho, trabalho, contas a pagar, muitas responsabilidades. Bem-vinda à maturidade! Onde fica a diversão? Prazeres? Só por algumas horas. Trânsito, estresse, injustiças, puxa-saco promovido. Já te falei que odeio meu chefe?! Estudei tanto para fazer isso?! Não quero mais esse emprego. Se eu pedir as contas, o que vou fazer? A vida tá um saco! Tô tão triste. Nada tem sentido. Comecei a terapia. Desacelerei, mudei de estilo de vida, parei de dar bola para minha mente. Ela me deixava maluca. A vida tá legal. Acho que conheci o amor da minha vida. Vamos nos casar? Filhos? Não! Quero independência, um amor leve e do meu jeito. Ele no seu canto e eu no meu recanto. Assim está tão bom!

Silhouette of little girl raising hand to freedom happy time

Olho no espelho e ainda reluto a acreditar: estou velha! Os anos passaram tão rápido. Demoro para perceber que aquelas rugas e as manchas na pele são minhas! Minhas? Não é possível! A realidade só toma corpo quando lembro das despedidas. Despedir nunca foi fácil. Lembrar de quem já partiu me deixa mal. Melhor mudar de assunto. Assim, sem perceber, um dia, o corpo não acompanhava mais a mente. Esse descompasso causou alguns acidentes. No último tive de fazer dezenas sessões de fisioterapia. Era isso ou entrar na faca. Deus me livre! Ufa, ainda bem que meu corpo ajudou. Conversava com minha perna todo dia “pode tratar de curar ou prefere passar por uma cirurgia e ficar com uma cicatriz?” Ela, como filha obediente, foi gradativamente melhorando. De resto, tudo vai bem. A cabeça às vezes dá uns apagões. Alguns até desconcertantes. Em reuniões familiares, noto os olhares entre os mais jovens como que dizendo “será que é Alzheimer?” Dou risada por dentro. Sinto vontade de falar “não tô gaga ainda, só velha mesmo!”. Em casa, os dias passam, sem nenhum compromisso marcado, sem pressa, não há chefe me esperando, marido aguardando o almoço ficar pronto, filho perguntando se vi a calça que ele tanto gosta. Não, não pensem, que a minha vida é triste e solitária. Essa é a vida que escolhi. Nem pior ou melhor, mas a que escolhi!

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Xaveco de Buteco: Conto #9 Vó Raissa

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Desde a liberação de novas áreas de assentamento na Cisjordânia, a Intifada voltara furiosa. Os confrontos eram diários e a violência crescente.

Meus irmãos, Ahmed e Khaled, já não iam à aula há três dias, o tempo inteiro nas ruas do bairro, se escondendo atrás dos carros e arremessando pedras nas patrulhas israelenses. No início eles respondiam com gás lacrimogênio, mas depois que alguns soldados israelenses se feriram, balas de verdade passaram a ser utilizadas provocando mortes. Sem choro; seria bobagem mesmo.

Morávamos com nossa avó Raissa desde que nossos pais se foram, nem vou detalhar como. Seria bobagem mesmo.

Vó Raissa passava o dia todo na cozinha fazendo nossas refeições. Fazia comida e milagres com a precariedade de recursos e mantimentos que tínhamos, alheia a tudo além de suas panelas. Parecia uma sombra. Eu nunca percebera, o mais minimamente, o que se passava em sua cabeça. Nem tentava, seria bobagem mesmo.

E eu, estudava o Alcorão. Há três anos entrara para a Escola Corânica e o Sufi que me orientava, um verdadeiro homem santo, à medida que se entusiasmava com meus progressos, ficava cada vez mais exigente. Tinha três Suras para estudar por semana e, acredite, isso é muita coisa se você quer mesmo penetrar no seio de Alá.

Minha avó via meus irmãos saírem toda manhã com a cabeça coberta pelo Keffiyeh e só voltarem, já tarde da noite, sempre com alguns ferimentos. Ela não dizia nada, seria bobagem mesmo.

Também me via lendo o Livro horas a fio e igualmente não dizia nada. Sua cabeça era um mistério.

Certo dia, tão similar aos anteriores, eu estava sozinho em casa estudando o Sura do Trovão, um dos mais difíceis, e ela passou por mim, tocou muito levemente minhas costas e disse:

“Escolha uma pedra, coloque-a na mão e dê a volta no quarteirão”.

Fechei o Livro sagrado e obedeci imediatamente.

Só Alá é Deus e Maomé, o seu Profeta.

SOBRE O AUTOR

JUSTINO VIEIRA – Engenheiro de Estruturas, Professor de
Engenharia na UFF e Arquitetura na PUC-RJ, leitor obsessivo,
e que passou a vida inteira às voltas com números e contas,
mas aprendeu com Drummond que “a luta com palavras é a luta mais vã”

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Xaveco de Buteco: Conto #9 Marcas desumanas em paredes brancas

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Os arbustos pareciam distantes. As colinas, de um verde jovial, reluziam ondulantes no horizonte. Algumas folhas regiam a sinfonia do vento com clássica doçura, enquanto outras sacolejavam e insistiam na segurança da raiz. O riacho conversava com as pedras em tom ameno, recitando versos de ternura. O céu, mesclado de azul e cinza-claro, se modelava e se deformava, adaptando a manhã aos desejos da natureza.

A janela de vidro ainda tinha sinais embaçados da madrugada. Gotas solitárias escorriam de uma madeira a outra. A temperatura interior estalava na lenha contorcida da lareira. O clima parecia aconchegante, apesar de gélido. O sol, ainda parcialmente desperto, e sabendo de seu poder, evitava lançar seu charme de forma abrupta sobre o gramado. As árvores respiravam pausadamente, trabalhando sem pressa.

Ao lado da lareira, as estantes enfileiravam e organizavam o repertório de uma Era. Os livros, sem lar vertical, se amontoavam pelos cantos em lógicas definidas. Dois deles, por motivos distintos, repousavam na mesinha de centro, juntos a riscados e rabiscos. A gaveta emperrada guardava segredos de décadas. No criado-mudo, fotografias e recortes de jornais antigos contavam mentiras de povos perdidos.

Os lençóis, trocados recentemente, ostentavam uma brancura quase transparente. Nas cortinas de seda cara imperava um branco fosco, duro e intransponível. As paredes eram sujas, manchadas com marcas humanas e desumanas. Pouco era possível recordar do tempo em que elas também eram brancas. Do tempo em que a janela permanecia aberta e o coração permanecia vívido. Do tempo em que o infinito aparentava estar mais distante que os arbustos das colinas. Do tempo em que o infinito estava do lado de lá, das gotas solitárias.

Suspirei.

Tudo estava branco novamente.

 

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Bombando!