Review: Empire: Um Novo Ritmo para a Indústria Televisiva

Empire Destaque

Quando você pensa em telenovelas, a primeira coisa que vem à sua cabeça é Thalia e dramalhões mexicanos que você já não aguenta mais assistir? Pois esqueça tudo isso, ou não, porque a roda já foi inventada, mas a primeira produção de Lee Daniels nas telinhas, que estreou este ano na FOX, veio para dar um novo gás e grande frescor à um gênero que já parecia findado. Empire traz para as telinhas tudo o que você sempre se sentiu “culpado” em assistir com uma nova roupagem, tornando impossível o desprendimento do telespectador com a narrativa do show. Inteligentes o suficiente não cairão nessa, mas leigos como nós, nos entregaremos de corpo e alma à este som intrigante, envolvente e porque não, extremamente cafona.

Acompanhando a carreira cinematográfica de Lee Daniels, ao longo desses últimos anos, é perceptível que o diretor tem dois pés na escola Oprah de produções artísticas. Sempre com uma pegada extremamente sensacionalista em suas obras, pensávamos… Porque ele não se “joga” logo em seu gênero ao invés de ficar tentando agradar à academia? Pois o diretor não só se “jogou”, como, ao que tudo indica, veio para dominar de vez a indústria televisiva.

Acompanhado de Timbaland como seu produtor executivo musical, Daniels apostou no infalível: música mais televisão. E não se trata de qualquer música, não estamos aqui falando de nenhum coral de ensino médio ou cantores fracassados da Broadway, estamos falando de algo que atrai muito mais que apenas o fã clube de Barbra Streisand. Participações de nomes como Snoop Dogg, Courtney Love, Jennifer Hudson aliados ao infalível roteiro de Daniels e Strong fizeram de Empire o grande “Must See It” do ano e maior audiência dramática da TV da última década.

A história é muito simples, não tem porque inventar a roda, como já disse: uma família, uma grande empresa, uma herança em jogo e um legado a se preservar. A base de qualquer boa novela está aí. O Patriarca e fundador da Empire vê-se com os seus dias contados e resolve dar a largada à sucessão de seu trono. Em sua linha de sucessão temos o primogênito, trabalhador, que sempre esteve ao lado do pai, mas que nunca ganhará o seu reconhecimento por não possuir o fator à mais (neste caso, talento); o caçula, talentoso, criativo, a cara mais contemporânea da marca, mas que nunca se comprometerá com nada (o grande clichê do filho mais novo); e o filho do meio, extremamente talentoso, sensível, cópia escarrada do pai, porém tem um grande “defeito”… É gay.

Lucious Lyon, venceu na vida, se tornou um grande nome de indústria da música, criou os seus três filhos, enquanto sua esposa estava na cadeia, e agora está prestes a morrer. Quem segue ao pé da letra essa descrição, não passa nem perto da real ambiguidade que possui o dono da Empire. Com muitos podres em seu passado para chegar aonde chegou, Terrence Howard dá vida a uma personagem forte, familiar, passional e extremamente duvidosa, praticamente a figura de um “poderoso chefão”. O bacana é observar que em sua personagem principal, Empire deixa de explorar muitos potenciais cariacatos para desenvolver suas nuances, e somos presenteados com uma brilhante e impecável atuação de Terrence durante toda a temporada.

Personagens estereotipados logo de cara, é hora de dar início aos jogos, mas como todos bem sabemos nem todas as peças no jogo pelo poder são legitimadas, e as pontas soltas do passado sempre voltam para assombrar o nosso presente. Cookie é não só a melhor personagem do show como também dá todo o dinamismo ao roteiro. A ex-mulher de Lucious Lyon e mãe de seus três filhos, que acabou de sair da prisão, exerce um papel extremamente ambíguo durante toda a temporada. Como alguém que está há muitos anos fora do jogo e ainda tateando o chão que irá pisar, ela transita entre vários sentimentos, raiva, amor, sonho, paixão, traição e vingança. A personagem ainda brinca muito bem entre o ridículo e o sensato quando se trata do gerenciamento de uma empresa fonográfica, tanto tempo desatualizada e sem a finesse nessessária para a sua posição, a personagem de Taraji P. acaba cometendo várias gafes, que nós também cometeríamos se estivéssemos em seu lugar, desenhando assim uma ponte muito símples entre o telespectador e os jargões e situações mais complicadas do roteiro.

Partindo desse panorama, a série executa uma exemplar primeira temporada (com alguns pontos fracos no final), recheada de intrigas, reviravoltas, acordos e desacordos, jogos de poder, romances de todos os tipos, mortes, e claro… Muita música boa. A primeira temporada de Empire entra para o hall da TV como uma das coisas mais batidas e revolucionárias, mais incríveis e degradantes, mais nocivas e viciantes ao mesmo tempo. Ambiguidade não está apenas presente em cada uma das personagens da série, como também constrói o nome da mesma. Ambiguidade é o que nos faz salivar e nos intriga como telespectadores. Ambiguidade é o que te fará nunca mais parar de assistir Empire.

Jairo Borges