Cinema por quem entende mais de mesa de bar

O Leitor

(The Reader). De Sthephen Daldry. Com Kate Winslet, Ralph Fienes, David Cross, Lena Olin.

Há certa recorrência de temas e abordagens se pensarmos no cinema de Stephen Daldry, embora tenha produzido poucos filmes. Todos fantásticos. Com exceção de Billy Elliot, seu As Horas e este recente O Leitor falam de modo geral sobre passado, sobre as marcas que ficam e que no máximo se transformam, mas nunca desaparecem. A trilha é sempre primorosa, por si só emocionante. Os dramas e experiências de cada um nunca são vistos como algo isolado. A edição que funde e une imagens. A Nova York deprimente e repleta de cores tristes (mais até que a Alemanha pós-guerra no caso do último filme). Os roteiros são sempre adaptados, mas parecem encontrar o realizador ideal em Daldry. E ele não decepciona. Alguém tem dúvida de que seu nome já é sinal de qualidade?

Se em As Horas o mote inicial era o livro escrito por Virgínia Woolf, que acaba por determinar de forma direta ou não, a vida de mais duas mulheres (e de todos ao redor delas), em O Leitor é Michael (David Cross quando jovem, Ralph Fienes adulto) que por uma coincidência do destino acaba conhecendo Hannah (Kate Winslet). Envolvem-se e uma troca acontece: ela lhe ensina a arte do sexo, lhe oferece o primeiro (talvez o único?) grande amor da sua vida; ele lhe mostra uma nova realidade, mais sensível, mais humana, que surge através da literatura. Todos os dias, antes de fazerem amor, ele lê um trecho de uma obra literária. Ela se emociona, ri, chora, vive histórias que uma alemã, antes apenas trabalhadora da linha de trens da cidade, nunca poderia imaginar. Pois embora seja uma funcionária eficiente, não sabe ler. É visível sua preocupação em escondê-lo. O que para Michael não é problema, embora não saiba disso, já que consegue aos poucos se aproximar daquela mulher através do ato de ler. De lhe mostrar novos mundos. Estavam quites então.

Quem conhece a sinopse inicial não desconfia do que realmente se trata a personagem de Winslet. Qualquer um que acompanhe sua carreira sabe o quanto ela é talentosa. E linda. Mas a forma como desenvolve Hannah é impressionante. Sua dureza que aparece de início faz com que esperemos a todo o momento a aparição da nazista que irá ser julgada pelos crimes cometidos. Mas ela é muito mais que isso. Na medida em que a história se desenrola, as mudanças que Hannah sofre são perceptíveis. Michael de alguma forma a toca. Lhe dá um novo frescor à vida, que parecia se resumir à sua casa e ao trabalho. O que a princípio era apenas atração sexual, torna-se carinho, afeto, amor. Mesmo que ela não consiga dizer isso, com todas as letras. Ela nem sequer era capaz de se ver como mulher (se espanta quando Michael elogia sua beleza). Não é de repente que aprendemos a viver sentimentos. Que dirá verbalizá-los. E é balbuciando esses sentimentos que sempre vemos Hannah, numa interpretação emocionante por estas sutilezas. Ela não consegue ler o cardápio, e nem é capaz de assumir, de expor sua vergonha por seu analfabetismo. Prefere selar sua própria condenação. Sempre se guardando, para não expor, mais que sua dificuldade em ler, sua fraqueza.

O pragmatismo de Hannah assusta de tão real. Sua racionalidade afinal de contas não poderia dar conta do acontecimento do qual participava. Se manter judias presas numa igreja que está prestes a se incendiar se justifica pelo fato de que ela estava guardando-as, de que ela deveria a todo custo cumprir sua função, isso é mostrado com tal sensibilidade pela atriz, que Hannah nunca se mostra uma vilã. Ela apenas agia de acordo com as circunstâncias. De certa forma acaba sendo a mais humana das rés, já que assume os motivos que a fizeram agir daquela forma (quando se trata de responder por suas “responsabilidades” ela não hesita). Atenção à feição, às expressões, ao modo de falar, ao choro contido…

É aqui que vemos a figura de Michael. Na sua juventude, é vivido pelo (belo e talentoso) David Cross, que quando conhece Hannah está cheio de curiosidades e vontades de viver esse seu tão inocente e puro amor. As cenas em que estão juntos na casa de Hannah são belíssimas e conseguem traduzir com perfeição a relação que se estabelece entre os dois. A primeira cena da briga entre eles, quando ela diz coisas impensadas (novamente prova de que ela não sabe lidar com esse novo sentimento): em seguida ele retorna lhe pedindo perdão pelo ato impulsivo. O medo de ouvir que ela não o ama. Que logo passa, como um garoto (ela o chama a todo o momento de kid) que viu seu desejo realizado. É uma época em que ter ilusões, persistir nelas ainda é possível. Ele cresce. As marcas que aquela mulher deixa em sua vida nunca irão embora. Cross demonstra a maturidade do garoto agora na faculdade com êxito. Sua frieza com outras garotas… Nenhuma afinal de contas vai lhe proporcionar algo parecido. Isto por si só já seria suficiente para fazer com que Michael tivesse a imagem de Hannah por toda a vida.

Outra coincidência: em uma espécie de trabalho de campo em seu curso de direito, Michael acaba acompanhando o tal julgamento de Hannah. As sequências são tensas, tristes, comoventes. Michael pode mudar o rumo do julgamento, pode mudar o rumo de Hannah, mas hesita. A vergonha de Hannah, não pelo que fez, mas por sua “imperfeição” o impressiona, mas não o motiva a agir (numa das cenas mais tristes e frustrantes do filme). A edição coloca a imagem da dúvida dele, e a imagem da tristeza e solidão dela. Pronto: mais uma escolha, e mais uma série de conseqüências.

Vemos então Michael já mais velho, interpretado por um enigmático Ralph Fienes. O que faz aquele homem ser tão frio, tão distante? Se a princípio pensamos ser apenas o amor do passado, novamente o filme nos mostra que a coisa vai mais além. Culpa? O que Michael ainda sente por Hannah? Já me disseram que há coisas que deveriam ficar só na memória. O contato pode ficar aquém das expectativas e das lembranças. E se o tempo serviu para mostrar a Hannah que Michael foi a pessoa mais importante da sua vida (e há uma comovente gratidão por isso, demonstrada apenas através de gestos, no reencontro dos dois), sua indiferença já seria capaz de fazer Hannah se aperceber da gravidade dos fatos. Sua cena final no filme é de arrepiar.

E finalmente o diálogo de Michael com Ilana, uma das sobreviventes do acontecimento que condenou Hannah. Há algo que pode ser feito para amenizar os erros? Para Hannah sim. E ela tenta fazê-lo com toda a honestidade. Só não será suficiente. E novamente as marcas (desta vez aquelas que ficam em quem sobreviveu) são mostradas com um close certeiro. Seria melhor ter morrido também (como nos mostra Lena Olin ainda na cena do julgamento, quando interpreta a mãe de Ilana)?

No fim fica uma sensação estranha: de quem tomamos partido? Daquela que se sente envergonhada por ter um dia sido tratada como qualquer coisa que não seja um ser humano (a ponto de quase ser descartada); daquela que agiu e por ignorância não percebeu a gravidade do ato, e que admira tanto o talento que o garoto que ama tem para ler, preferindo qualquer coisa a ter que admitir que essa é sua maior incapacidade (culpa de Kate Winslet que humaniza tanto sua personagem, a ponto de ser impossível condená-la); ou daquele aluno (numa outra bela cena) que se envergonha por todos aqueles que fecharam os olhos diante do acontecido (que por sinal era um fato público) mas que não pensam antes de escolher seus bodes expiatórios. Assim talvez podem eles se sentir menos envergonhados.

O Leitor é um filme magnífico. Uma obra prima que ao lado de As Horas é um filme que embora fale de histórias particulares, não deixa de tocar em pontos universais. O da responsabilidade por nossos atos.